As coisas hão de melhorar

— É a nossa mala de cartão? — perguntou a mulher, ao ver os escassos pertences de ambas serem metidos à pressa lá para dentro.

Cilinha olhou, enternecida, para aquela mãe que sempre tratara como sua filha. Aos seis anos, tinham-na arrancado ao lar, aos tios e à pequena vila por onde corria, sem horas, sem banho, sem comida certa. Viu-se encarcerada num colégio de freiras, que a distância de cinquenta quilómetros fazia parecer o outro lado do mundo. Portas cerradas, refeições à mesa, farda limpa e engomada. Por favor, obrigada, desculpe, palavras que não conhecia, mas que depressa aprendeu a manipular. O porquê sempre sem resposta.

E a mãe à distância das visitas mensais. Nunca as deixavam sozinhas. Onde é que estás a viver? Comeste? Tomaste banho? Cheiras bem. Preocupações novas de menina a envelhecer. Percebia que devia ensinar à mãe os seus hábitos recentes, apesar das saudades do tempo em que não tinha nenhuma daquelas obrigações entediantes. Os tios, ao lado, fervorosos defensores da moral, iam condescendendo naquela proteção que a sobrinha dava à parente. Não irmã nem cunhada. Parente. Cilinha nunca ouvira falar em doença mental, mas sempre percebera que a mãe precisava dela.

Os tios. Falavam-lhe de tribunais, de juízes, de coisas que não entendia. Porque é que não podia continuar a viver com a mãe? E o irmão? Ainda nem dois anos tinha. Adotado? Nunca mais o veria? Não. Se o padrasto fez mal ao menino, porque é que não o prendiam e ela e a mãe não cuidavam do mano? A mente de criança punha-se em bicos de pés para tentar compreender o inexplicável.

Cedo se fez crescida. As coisas haviam de melhorar.

Aprendeu o suficiente sobre assistentes sociais, pensões por invalidez e bom comportamento. Ensinaram-lhe tudo isso as famílias caridosas, que, aos fins de semana, levavam as meninas para suas casas, voltando a despejá-las na solidão de dormitórios cheios, nos fins das tardes de domingo. Guardava o pouco dinheiro que lhe iam pondo nos bolsos. Na escola, a matemática servia-lhe, sobretudo, para fazer contas ao tempo que faltava para recuperar o amor. As coisas haviam de melhorar.

Doze anos depois do desterro, a liberdade. No dia a seguir ao seu décimo oitavo aniversário, arrancou a mãe de casa dos tios, sob várias ameaças e gritos de levarem a vizinhança à porta. Não cedeu. Durante alguns anos, a velha casa da família abrigou as duas mulheres. Comida, roupa e pequenos mimos, fruto da cobiçada pensão de invalidez da mais velha e dos poucos biscates que a rapariga ia arranjando na vila. Sempre pouco, mas repartido entre as duas.

Um dia, o sonho da capital, que sempre a espreitara, adentrou-lhe pela casa, vestido da promessa de um namorado. De cabeça perdida pela rapariga, o filho dos donos das piscinas novas — local de invasão dos veraneantes pobres da zona — levou ambas para Lisboa. Durante um mês, a vida foi brilhante. Amor, dinheiro, casa, passeios. A mãe com ela. O rapaz a tratá-la como nos contos de príncipes e princesas. E o futuro inventado a fazer-se presente. As coisas estavam a melhorar.

Contudo, o rapaz desapaixonou-se e regressou a casa, assim que os pais, moralistas de cartilha, lhe cortaram a mesada. O seu menino, sem ser casado, a viver com uma mulher criada num quase-asilo e, ainda por cima, com uma mãe atrasada. Podia lá ser. O rapaz caiu em si Percebeu a parte do casamento, a do asilo, a da pseudo-sogra, sobretudo a da ausência de dinheiro. Voltou para a vila, sem se despedir. Homens!, pensou Cilinha. Sapos disfarçados de príncipes.

De mão em mão, de cama em cama, sem um lugar a que alguma vez pudesse chamar seu, foi arrastando a mãe pelos becos da vida. Lisboa sempre era Lisboa. Além disso, as barracas onde os amantes a deixavam pernoitar, por vezes, ficavam tão perto das vivendas branquinhas, com caminhos ladeados por árvores tão bonitas! Teria lá trabalhado sem receber dinheiro, só pelo prazer de ali entrar. As coisas haviam de melhorar.

Se não fosse ela ter perdido o emprego de auxiliar no hospital, este Manuel não as teria posto na rua. Mas era difícil chegar a horas. O banho da mãe, o pequeno-almoço da mãe, a porta bem fechada para a mãe não fugir. E o barco não esperava. E ela sempre tão cansada.

Manda a tua mãe para cá. Desenvencilha-te sozinha, sugeriam os tios.

Mandar a mãe para longe dela? Doze anos bastaram. Antes e depois, tudo fora repartido. Sobretudo, o amor. Assim continuaria. As coisas haviam de melhorar.

Mas as portas dos conhecidos, as dos amantes e as das vivendas branquinhas onde ia pedir trabalho cerravam-se antes que ela batesse.

Os jardins não têm portas. Têm recantos discretos, onde esconder malas de cartão, bancos junto de lagos frescos, até lugares esconsos, onde guardar o amor.

As coisas haviam de melhorar.

Próximo
Próximo

A velha