A liberdade nunca está adquirida
De política e de História percebo o que qualquer cidadão atento ao seu país e ao mundo constata. Este tipo de regime político continua por cá (leia-se o “cá”, conforme aprouver).
As ditaduras comandam hoje mais de um terço do mundo. Mesmo distinguindo ditadura de autocracia. Na prática, para o povo, pouca diferença existe.
Continuam a crescer em número e em variedade. Dominam potências, países de importância estratégica. Veja-se o caso dos países produtores de petróleo e outras matérias-primas de valor. Segundo um estudo de Hans-Jurgen Puhle, em 2000, num total de 191 estados, havia 74 ditaduras contra 117 democracias. Aterrador.
O autoritarismo contemporâneo mascara-se, cada vez mais, de democracia. Umas sobreviveram, com grande capacidade de adaptação e resiliência, outras são novas, outras conheceram sucessões familistas.
Aliás, ao contrário do que possa parecer, há ditaduras que têm muitas semelhanças com as democracias. Este tem mesmo sido o modelo dominante deste tipo de regime: organizam eleições, permitem a existência legal de vários partidos, não têm censuras rígidas, cooptam e integram as massas e elites, são populares para certos segmentos da sociedade. No entanto, distorcem os resultados eleitorais, reprimem a cidadania, controlam a comunicação social. Apropriam-se do poder social, económico, cultural e político, obviamente. Associações profissionais, grandes industriais, produtores agrícolas, igrejas, outros líderes políticos são chamados a colaborar. Mantém-se o controlo, assumindo legitimidade, recrutando elites e articulando e agregando interesses, relacionando-se com as esferas institucionais. Ao monopólio imposto pelo partido já totalitário sobrevivem, assim, os grupos de interesse sociais, religiosos, etc. A censura é um pilar das ditaduras, o aparelho de propaganda vai desenhando a verdade oficial.
Plural. Claro. Os ditadores estão longe de governar sozinhos.
Na verdade, a vida dos ditadores não é fácil. Há que controlar tudo e todos. Frequentemente, criam-se instituições reservadas onde se tomam as verdadeiras decisões e se mantém, sob rigorosa vigilância, potenciais rivais. Sim, porque qual é o aliado do ditador que não almeja o seu lugar?
A questão é mesmo muito difícil de perceber para o comum dos mortais, que não estude História, Política ou Sociologia.
Mas, o comum dos mortais reconhece a repressão como uma componente estrutural das ditaduras. O medo, a violência, a intimidação, a vigilância são a base dos sistemas de controlo das sociedades autocratas.
Quando é que Portugal já viu isto?
A questão importante é: estaremos muito longe desta tragédia, novamente?