“Três mulheres no Beiral”, de Susana Piedade

Um dos livros mais bonitos que li nos últimos tempos. Finalista do prémio Leya 2021.

Passa-se num momento em que, tal como acontece noutros locais, ofuscados pelo potencial do Porto Antigo, pelo turismo massificado, proprietários e investidores pressionam e ameaçam velhos inquilinos, chegando mesmo a exercer represálias.

Numa rua típica do Porto, convivem tripeiros, turistas e artistas. Há movimento, barulho, alegria para uns, espanto e tristeza para outros.

De entre várias personagens muito bem desenhadas, sobressai a família de Piedade, uma octogenária, que viveu sempre naquela casa. Neste momento, existem o filho José Maria, a neta Madalena, a bisneta e o neto Eduardo.

Dá-se um confronto familiar, vão-se descobrindo segredos e há um desfecho que eu esperava. Preferi-o assim.

É que a pressão não vem só dos agentes imobiliários. Dói mais quando vem das nossas pessoas. Para algumas famílias, esta era uma solução para os seus velhos. Uns por ganância, outros, porque não sabem o que fazer com os idosos. Como providenciar-lhes os melhores cuidados, sem abandonar o trabalho necessário à sobrevivência.

Os lares aparecem como solução. Os bons, os maus, os assim-assim. Para as famílias, porque para os que neles vão viver todos são péssimos. Engole-se a vida que se deixa para trás e entra-se com lágrimas. Das que escorrem para fora ou das que escorrem para dentro.

A velhice, a solidão, a morte, estão intimamente ligadas à casa. Neste livro, ela é um verdadeiro lar. Um ninho de memórias. É uma personagem, com características quase humanas, que vai acompanhando a evolução dos seus habitantes.

Numa escrita poética, delicada, a autora deixa uma mensagem de esperança no amor, na amizade, no carinho e na dedicação que apaziguam um pouco o fim da vida.

É uma leitura muito dura, pelos temas que aborda, comovente, que nos deixa de coração apertado.

A morte sempre à espreita.

Editor: Oficina do livro

Ano de edição: 05-2022

Páginas: 296

 

“Susana Piedade nasceu em 1972, no Porto. É mestre em Ciências da Comunicação, com especialização em marketing e publicidade. A paixão pela escrita veio para ficar. Estreou-se na literatura com As Histórias Que não Se Contam, finalista do Prémio LeYa em 2015 e publicado no ano seguinte nesta mesma coleção, a que se seguiram o romance O Lugar das Coisas Perdidas (2020) e o conto «Dois Minutos e Meio até Passar o Comboio», integrado no projeto Mapas do Confinamento (2021). Três Mulheres no Beiral, finalista do Prémio LeYa em 2021, é o seu terceiro livro de ficção.”

Fonte: Bertrand

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