Só um poema

 

Podia morrer hoje.

Chove miudinho.

Daqui, chama-me a estrada, vazia, banal.

Dali, portas de aço, treva de noite insondável.

Apressa-me a tirania do tempo.

 

Morrer é nada.

Vazio.

 

Podia morrer hoje.

Sem fazer as malas, em doses suaves.

Volatilizar-me, invisível.

Sem deixar um risco na vida de quem…

Ir-me num suspiro tímido, ou num grito solitário

 

A morte faz-se presente.

Génese de renascimento

ou do nada

 

Sem sonhos nem risos, sem lágrimas nem flores,

que saudade morre cedo.

 

A morte é encontro,

festa de vivos por ora dispensados

 

Podia morrer hoje.

Deixar que fosse este o dia.

Para quê mais viver, respirar céu, mar e vento,

se, no último alento, o destino é esquecer?.

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