Que tempo?

 

Assombro-me.

Reconheço-me neste corpo velho.

Móvel de madeira pretensiosa,

Carcomido pelo tempo.

 

Que tempo?

Abstração de memórias.

 

Tento encerrá-las nas gavetas.

Rombas, resistem à minha vontade.

Parem recordações duras,

como vaginas doentes

expulsam nados mortos.

Inúteis.

 

Infestadas de frestas sanguinolentas,

Ligam momentos soltos.

Encontram-lhes sentidos inusitados,

Causas e consequências por mim abafadas.

 

Ténues fios de luz perpassam entre elas.

Entrelaçam histórias devidamente olvidadas,

Atam-nas com fios de nylon

Em nós de várias pontas, que se espetam na madeira dorida.

 

Marcam-me os golpes de machado de muitas vidas.

Infiltra-se neles a luz,

nova ajuda à abertura de gavetas.

 

Que tempo?

Já não é meu.

Já não sou dali.

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