Largo-me

Largo os sapatos.

De que me servem?

Caminhei sempre sobre saibro, espinhos e arestas.

Piso mais levemente o chão.

 

Largo a roupa.

De que me serve?

Tapou-me sempre mal a pele, carne e ossos.

Elevo-me um pouco.

 

Largo o corpo.

De que me serve?

Cobriu-me sempre mal o dentro.

Subo no vento.

 

Largo a alma.

De que me serve?

Escondeu-se sempre de gente.

Não subo. Pairo.

 

Não quero ser pó nem cinza.

Só nada.

 

Subo.

Um quase-nada

Já, já...nada.

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A pulso