A minha pátria é a liberdade

— Anda comigo ver os aviões.

A Sofia revira os olhos e ri-se. Apesar de achar que este ritual é uma patetice, acede ao meu pedido. Sabe que vai ouvir novamente a história, mas é outra oportunidade de estarmos juntos, agora que o curso de Medicina a trouxe para a capital, afastando-a, novamente, de mim. Além disso, também ela gosta de falar do nosso país.

Sempre que venho a Lisboa, em trabalho, faço isto. Nos últimos dois anos, a minha filha mais nova acompanha-me. Sentamo-nos num muro do Vale do Silêncio, de onde avistamos os pássaros metálicos, e regresso ao fim da minha primeira vida.

Era uma tarde de janeiro, como hoje. Aquele momento inexato em que já não é dia, mas também ainda não é noite. Um intervalo entre tudo.

Quando o avião começou a sobrevoar a cidade, desabou a tormenta. Lá fora e em mim. Os minúsculos pirilampos que desenhavam Lisboa piscavam, na tentativa de iluminarem os caminhos. Adivinhei o frio, o desconforto, a falta de lar. No meu Caribe, a chuva é abençoada. Cai inesperada e torrencial. No entanto, furtiva, afasta-se rapidamente para abrir rumo à luz. Abracei a solidão, protegendo-me da saudade que não mais me largaria. Companheira de aliança no dedo e cerimónia religiosa.

A cauda de riscas azuis e vermelhas do meu país aterrou numa dança de pares errados como a turbulência no meu coração. A enormidade do aeroporto desorientou-me e andei algum tempo perdido. Engoli uma sandes mista no bar e dirigi-me à saída.

Sem que contasse, esperava-me o sorriso franco do meu primo. No abraço apertado dissemos o que não precisava de voz.

— Pensaste que te dejaría solo?

Um pedacinho de casa. A minha língua que ficara para trás há algumas horas, mas me parecia já tão distante.

O caminho fez-se na algazarra do reencontro dos que se querem bem. Ele insistia em saber tudo sobre a família, os amigos, os lugares. Só não sobre o país. A mim encantava-me o carro. O meu primo tinha um carro! Quando fugira, com dezoito anos, na casquita de noz que o levara para Miami, ficámos apavorados. Um bilhete num pedaço de papel, que era o rosto da boa disposição do rapaz: “Si los tiburones me comen, le dejaré mi fortuna a Orlando.” Não o comeram os tubarões, não o matou a fome nem a sede. Não herdei a fortuna. Um mês depois, soubemos que a travessia se fizera com sucesso e Ramón estava em casa de uns amigos. No meu país, aprendemos, há muito tempo, a sermos família.

Por insistência minha, deixou-me na modesta pensão. O primo trabalhava à noite num restaurante e não me apeteceu jantar sozinho com a mulher que o trouxera para Portugal e eu não conhecia. Precisava de rememorar os passos que daria e aquietar-me. Teria de comparecer no Congresso de Anestesiologia, às oito da manhã. Seria o terceiro palestrante. Por mais que adorasse a minha profissão, os meus olhos precisavam de perceber de onde poderia vir o perigo e de onde poderia vir a ajuda. Reconheci, facilmente, três ou quatro típicos compatriotas, vendidos ao regime, talvez por mais um terço do pão do racionamento. Não por ideologia. Com toda a certeza, tinham falhado a minha chegada, na véspera. Não sabiam do meu encontro com Ramón ou já me teriam “chamado à parte”.

Nada no meu comportamento, nesse dia ou nos três que se seguiram, denunciou os meus intentos. O espaventoso primo manteve a distância, sem qualquer explicação. O congresso decorria com tranquilidade e eu desesperava. Ao quarto dia, sem o contacto combinado, a incerteza transformou-se em deceção. Sem a prometida ajuda, o dinheiro que tinha trazido esvaíra-se na estadia. Apesar de representar o meu país, as despesas pesavam nos ombros. 

A mala pronta. O meu espírito já se despedia da ilusão de liberdade, quando um envelope resvalou por baixo da porta. Abri-o imediatamente, mas já não vi ninguém no corredor. Li o número de telemóvel, no bilhete do interior, enquanto corria para a janela. A dobrar a esquina, uma manga preta deixou entrever a ponta de um martelo, numa tatuagem. Um dos esbirros do regime. Seria uma armadilha? O que poderia eu fazer? O coração ressoava as bombas e rajadas das metralhadoras daquela noite de que sempre ouvi falar, na malfadada Baía. Liguei. A voz que ouvi do outro lado imobilizou-me. “Caro colega, eu e a minha mulher teríamos muito gosto em que jantasse, hoje, em nossa casa. Traga a mala. Precisará dela.”

O Dr. Andrade Menezes albergou-me durante o período do meu pedido de equivalência ao curso de Medicina, em Portugal. Um amigo que foi trazendo outros à minha nova vida.

Acabei por me instalar no centro do país e, durante quatro anos, matei o corpo a trabalhar onde e quando não podia. A alma manteve-se viva nas saudades de Maribel e das meninas. A minha mulher recebeu as represálias pela minha fuga com a dignidade e candura de sempre. Éramos uma verdadeira família, pelo que tudo fora planeado por ambos. Conhecíamos os riscos. Desconhecíamos era o verdadeiro sabor de uma liberdade só adivinhada nas fugazes notícias que iam chegando dos exilados. Durante esse tempo, poucas vezes falei com a minha família. As chamadas eram caríssimas e os telefones raros. Nem todos tinham um conhecido estrangeiro, que aceitasse ter o número de telefone no seu nome. Comi o pão que o Diabo amassou, como se diz por cá. Elas pouco pão tinham. Como Penélope, a minha mulher foi tecendo a rede de contactos e documentos. Não para me esperar, mas para vir até mim. 

Naquela noite, Ramón ligou-me ainda mais eufórico do que de costume. As palavras atrapalhavam-se-lhe na boca e, no início, pouco consegui perceber. Fui ouvindo entrecortadamente: “Maribel…hijas…aeropuerto…mañana…” Desesperava no grito que lhe lancei. Abrandou o ritmo. A minha vida recomeçava ali.

— Conta-me, outra vez, como foi o nosso reencontro — pediu a minha menina, apesar de se lembrar muito bem.

Continuamos deslumbrados com a dádiva que a vida nos proporcionou. Em casa, mantemos a memória. A nossa terra será sempre aquela em que nascemos e onde ficam os nossos mortos.

Às vezes, penso que deveria ter ficado e lutado pela liberdade. Mas é difícil lutar sem pão na mesa. É difícil erguer a voz contra a repressão, a prisão, a tortura, se as nossas armas não passam de um punhado de mãos cheias de gritos.

Daqui posso pôr mais pão na mesa dos que ficaram. A opressão não conhece a dignidade. Recebe bem o dinheiro dos que partem.

Afinal, nunca deixei o meu país. Foram os senhores da ditadura que o fecharam para mim.

Não me arrependo. Escolhi o lado certo. A minha pátria é a liberdade.

Anterior
Anterior

Acerto de vidas