Acerto de vidas

No corredor, o silêncio aguardava a forma como a ira de Dieu cairia sobre o homem da limpeza. Seria, com certeza, qualquer coisa hedionda, mas, a expectativa foi gorada.

O magnata não parecia sequer ter reparado na enorme mancha que o detergente espalhara no seu fato Armani e na alva camisa Valentino. Fixou um olhar humilde no de desafio do trabalhador.

A aflição dos empregados deu lugar à estupefação quando o Todo Poderoso reabriu a porta do seu inacessível gabinete e, com um gesto cortês, convidou o homem da limpeza para entrar.

Fora, o burburinho encaminhou-se para longe. Dentro, encerrava-se o segredo.

Armando Vendeiro entrou, empurrando o carrinho da limpeza como se fosse uma extensão dos seus braços, e dirigiu-se à janela por trás dos opacos cortinados de damasco. A avenida Montaigne respirava o luxo dos edifícios do século XIX e o ir e vir dos parisienses que frequentavam as sofisticadas lojas, sobretudo as de alta costura, que a povoavam. Mas, o bulício era inaudível dentro do faustoso gabinete do dono da multinacional, Jerónimo Rato. As pessoas raramente são o que parecem e dali não se podia saber se os que deambulavam lá em baixo eram leais ou traidores. “Deve ser por isso que ele tem aqui o gabinete, para não poder confrontar a sua vergonha com os outros e imaginar que os de lá de baixo são iguais a ele” pensou.

Jerónimo Rato abriu, atabalhoadamente, o frigorífico e retirou uma garrafa de aguardente.

— Esperei-te durante quarenta e dois anos. Sentamo-nos?

Armando largou o carrinho e sentou-se numa das exclusivas cadeiras de puro couro, em frente ao homem que, apesar da amizade que os unia, o assombrava desde sempre. Embora ainda se debatesse com o dilema que ali o levara, aparentava tranquilidade.

— Nunca duvidei de que serias esta pessoa. Mesmo antes de te encontrar, há cinco anos. Lá, na aldeia, todos acreditam que morreste ou que vives como um indigente.

— Há cinco anos? Porque é que só agora vens confrontar-me?

— Não pretendi confrontar-te. Passava pelo corredor, simplesmente.

— É, portanto, uma coincidência que trabalhes na minha empresa!

Armando levantou-se, segurando-se com as mãos nodosas aos braços da cadeira passeou-se pela sala e parou em frente do homem que lhe arruinara a vida.

—  Estávamos destinados a encontrarmo-nos há quarenta e dois anos. Desde aquela noite.

Jerónimo não suportou o olhar do outro e baixou a cabeça. A voz saiu-lhe num sussurro:

— Nunca soube o que tinha sido feito de ti…

Então, Armando sentou-se, novamente, em frente do amigo de infância e, de olhar perdido na cabeça grisalha baixada, contou:

— Prenderam-me. Naquela madrugada, logo que o camião embateu no sobreiro do Cotovelo da Morte, percebi que estávamos perdidos. Quando me gritaste: ”Foge, Armando!”, não pensei que te despedias de mim. Cego pelos faróis dos carros que nos perseguiam, corri pelos matos até à nossa aldeia. Era dezembro, lembras-te? O frio tinha gelado a chuva consecutiva dos últimos quinze dias. A entrada da mina do Ti Jacinto continuava quase toda tapada pela derrocada que provocámos, quando explodimos a dinamite que o Zé da Horta guardava no alçapão do celeiro. Tínhamos doze anos. Lembras-te?

Jerónimo baixou os olhos.

—  De lá, pude ver as lanternas dos homens que nos procuravam em todas as casas, debaixo de cada pedra. A Secção do Pelotão de Piquete, o Sargento e o Oficial de Assistência. Eram catorze. Pareceu-me o exército inteiro. Tive medo das fardas, das armas, das luzes que se aproximavam de mim. Tive medo da minha mãe e dos nossos vizinhos, que se escondiam por dentro das janelas. Tive medo por ti. Nunca tive tanto medo. Nem quando, já de manhã, no Regimento, os oficiais me espancaram para que te denunciasse. Nem nos dez anos que passei na prisão. A prisão quebra um homem, sabes? Sobretudo um soldado, antes da Revolução. 

— Não sabia que tinhas sido preso. Perdoa-me…

Mas, Armando continuava de olhar e mente perdidos naquele passado.

— Foi o militar de reforço de segurança que deu o alerta, segundos depois de transpormos o portão de saída de viaturas. Afinal, o homem não estava tão bêbedo como pensávamos. Assim que ouviu o ronco do camião, chamou o cabo da guarda, o sargento e os três soldados. Correram para as traseiras do quartel, mas o condutor de dia não encontrava as chaves do camião, nem do parque de viaturas, nem do portão, no gabinete do oficial de dia. Pensávamos que aguentariam pior o álcool que os incentivámos a beber na festança. Lembras-te? Mandaram formar o regimento. Faltávamos nós. Daí a morderem-nos os calcanhares foi um instante. Se não tivéssemos perdido aquele tempo a tirar o pinheiro da estrada…

— Apanhavam-nos na mesma. Éramos dois rapazelhos de dezoito anos armados em homens de barba rija. Condenámo-nos assim que pensámos no assunto pela primeira vez. 

— Não, ficámos condenados assim que a vimos pela primeira vez. Lembras-te? Apaixonámo-nos como só os inocentes conseguem — sorriu Armando.

O rosto de Jerónimo desanuviou-se e as palavras saíram da sua boca como açúcar.

— No dia da explosão. Foi aí que nos perdemos. Achas que ela guardou o segredo? Alguma vez terá contado que fomos nós?

— Acredito que não. A minha mãe — que Deus a tenha — contava-me as novidades sempre que ia à prisão. Um dia, disse-me que a Amélia ia casar com um primo que a levaria para a América. Foi noutra vida. Lembras-te?

— Então, nunca soube que o piano era para ela? Que o roubámos para a podermos ouvir tocar em casa, todos os dias, como naquela tarde, na vila, em casa da D. Zelinha? Embevecidos. Lembras-te, Armando? Ficámos parados, debaixo da janela, como se ouvíssemos anjos tocarem.

— Deve ter percebido. O piano foi encontrado na encosta do Cotovelo da Morte dois dias depois. Despedaçado. Nunca ninguém perguntou por que tínhamos feito aquilo. Pensaram que o queríamos vender para arranjarmos dinheiro. Nunca contei a verdade. Mas, tu…

— Fugi. Dei o salto para França sozinho. Vivi dias como um animal acossado pela guarda. Tive medo. Como nunca tinha tido nem voltei a ter. Depois, trabalhei muito. E tive sorte. Cheguei aqui. Custou-me a família, os amigos, a aldeia. A Amélia. Fui um cobarde. Desgracei-te a vida. Desde miúdo que te incentivei a todas as tropelias que cometemos e deixei que pagasses por elas. Tu, o amigo sempre leal. Sabia da tua paixão por ela e da tua amizade por mim. Sabia que ela te preferia e morria de ciúmes de ti, da tua inteligência, da tua alegria, da tua facilidade de te fazeres amar pelos outros. Sabia que, apesar do perigo e da tua sensatez, também a querias fazer feliz. Usei isso contra ti. E falhei-te. Em poucos segundos, escolhi trair-te. Abandonei-te para arcares sozinho com a culpa do roubo daquele piano, que julgávamos raríssimo, mas, afinal, era um órgão. Também nós nos achávamos os donos do mundo e, afinal, não passávamos de dois pategos. Como é que me descobriste aqui? Mudei de nome, nunca mais contactei ninguém da aldeia. Vivo fechado, solitário, sem vida social. Aquela noite quebrou-me.

— Um acaso. Acreditas nos sinais da vida? Quando saí da prisão, tive vergonha de voltar para casa. França pareceu-me um destino natural. Dei o salto sozinho. Vivi dias como um animal acossado. Tive medo. Quase tanto como naquela madrugada em que o sargento da guarda me arrastou para fora da mina. Trabalhei muito. Mas, a única sorte que tive foi ver-te entrar no teu grande carro, à porta deste prédio, quando varria a rua, há cinco anos. Foi fácil saber quem eras e entrar no teu império como empregado de limpeza. Logo se veria. Não mudei de nome, mas não és tu quem escolhe os trabalhadores. Talvez não tenha sido sorte. A vida fala-nos de mil maneiras diferentes. É preciso saber lê-las e não lhes fugir.

— Compreendo que queiras vingar-te. Preferia que não nos tivéssemos reencontrado — suspirou o magnata, de voz embargada.

— Não compreendo que me conheças pior do que eu. Preferia que o nosso segredo não tivesse acontecido — retorquiu o empregado da limpeza, sem azedume.

— Há muito tempo que somos dois velhos. As pessoas acham que se envelhece lentamente. Primeiro o corpo, que se deteriora, depois a alma, que perde o gosto pela vida, que se esvazia de desejos e se enche de recordações. Nós envelhecemos ao contrário.  Aconteceu naquela noite. A vida tornou-se tão real, como se já tivéssemos conhecido o significado de todas as coisas, como se tudo apenas se repetisse e os imprevistos não passassem, também, de banalidades. Envelhecemos naquela madrugada, há quarenta e dois anos, quando te abandonei, cobardemente.

— Sempre soubemos que este encontro aconteceria. Era preciso encerrar a história que nos comeu a alma. Agora temos de esperar que o corpo se apresse.

— Voltaremos a ver-nos?

— Não. Deixemos correr o que resta. Como até aqui: sozinhos.

Levantaram-se ambos num abraço espontâneo. Duas vidas, finalmente, acertadas.

O homem e o seu destino amparam-se mutuamente.

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