Rosas e champanhe

11h00. A campainha soou tímida e ansiosa, como em todos os domingos dos últimos sete meses. Dois minutos depois — o tempo perfeito que impunha a elegância — novo toque, desta vez também tímido, mas com sabor a desalento. O mesmo silêncio de antes.

Alípio — aliás, o Senhor Doutor Alípio Vaz de Barbeitos — pareceu mirrar o corpo, que trouxera de porte ereto e decidido, baixou os olhos e cumpriu o ritual dos últimos dois meses: depositou, no chão de mármore rosada, junto à porta, uma garrafa de Dom Perignon com uma rosa vermelha cruzada por cima. Depois, cabisbaixo, dirigiu-se ao outro lado do largo, onde se sentou num banco de pedra, abrigando-se da quente sombra daquele julho ardente. Tentava, também, enganar o seu brio, imaginando que se abrigava dos curiosos olhares domingueiros, por detrás das janelas.

Era inútil. Já todos se tinham habituado àquela presença e os que ainda davam por ela suspiravam, abanavam a cabeça e prosseguiam o seu domingo. Acreditavam que o fim do suplício do homem e o de todos os moradores do luxuoso bairro estaria para breve, segundo a sentença tão aguardada do juiz. 

Ali ficou, durante os quarenta e cinco minutos habituais, o suor escorrendo-lhe pelos estafados oitenta e sete anos. De olhos fixos na porta em frente, a imaginação tornava-se realidade, novamente.

A primeira vez tinha-o ali levado o desígnio do destino, como gostava de pensar. Um engano ao virar o automóvel na última cortada, em vez da penúltima, fizera-o estacionar para tomar uma bebida, no café que anunciava chocolate quente. Viu-a assim que entrou. Morena, de longo e espesso cabelo negro, lábios carnudos e olhos de corça. Conversava com duas mulheres, também no fim dos vinte anos. Discretas, falavam baixo, enquanto comiam as torradas e bebiam os galões. Pouco mais se demoraram e saíram, depois de pagarem, por uma porta lateral.

Um impulso levou-o a seguir, atabalhoadamente, a rapariga, saindo para o janeiro cortante, seco e soalheiro. Atravessou um pequeno e ventoso túnel, atrás das vozes, e deparou-se com o amplo espaço, rodeado de edifícios. Discretamente, ficou por ali até ver as mulheres entrarem no spa. Incognitus Spa. Sentado no banco que passaria a acolhê-lo todos os domingos, dali a cinco meses, fascinou-se com a imagem da vitrine: uma porta entreaberta permitia vislumbrar, na penumbra, uma mão feminina com unhas vermelhas sobre umas costas masculinas oleadas, ao lado uma mesa com dois elegantes copos meio cheios. A breve deceção que sentiu ao perceber onde a belíssima morena trabalhava rapidamente se transformou em alegria: a rapariga seria acessível.

Passou, então, a frequentar o Spa, todos os domingos de manhã. Avivou-se-lhe a pele, mas morreu-lhe o coração. Apesar de pagar o dobro para que fossem sempre as mãos de Maribel a tratarem-lhe do corpo, a venezuelana, especialista em Lingam e Yoni, nunca acedeu a fazer-lhe uma massagem Nuru. Por esta altura, Alípio sabia tudo sobre massagens. Também nunca acedeu aos convites para se encontrarem a sós fora do trabalho, que, afinal, não envolvia sexo. Alípio apaixonou-se. Perdeu toda a compostura. Chorou, implorou, ajoelhou-se, prometeu mundos e fundos, ameaçou matá-la e matar-se. Andressa, a gerente do espaço, acabou por proibir-lhe a entrada.

Sem alternativa, o Dr. Alípio iniciou o ritual do Dom Perignon, o espumante preferido de Maribel, e da rosa Samourai, a rosa brasileira preferida da rapariga.

Todos os domingos de manhã, dentro do Spa, Maria Ángeles, assim se chamava a rapariga, tremia ao ouvir a campainha. Embora as colegas a tranquilizassem, contando-lhe vários outros casos idênticos que conheciam, a venezuelana, nova no ofício, perguntava-se o que faria se algum colega do mestrado descobrisse o que fazia e quem lhe criaria o menino que tinha ficado em Caracas, com a sua velha avó, caso o homem a matasse. Sem outra solução, a gerente aconselhou-a a arranjar outro emprego. Mas os únicos que conhecia envolviam homens bem piores do que aquele. Maria Ángeles desesperava.

Lá fora, o Dr. Alípio prosseguia o ritual. Levantou-se do banco às 11h45 em ponto. Às 12h00, estava, como sempre, em frente da igreja, dentro do carro, esperando D. Virgínia Vaz de Barbeitos, que saía da missa. Rezada, abençoada, purificada.

Impacientava-se. Desde há cerca de um mês que a esposa insistia em sair por uma porta lateral e lhe aparecia, o rosto vermelho, as mãos trémulas e o coração visivelmente a sair-lhe pela boca, esbaforida nos seus ainda frescos setenta e oito anos. Cheirava a perfume novo. Rejuvenescia. A pele avivava-se-lhe durante o tempo da missa, era notório.

O Dr. Alípio pensou que também ele precisava de começar a ir à igreja. Talvez o velho padre, confessor quase diário da esposa, lhe aliviasse o sofrimento. O pensamento a fugir-lhe para a jovem venezuelana, nem se apercebeu da rosa que D. Virgínia dissimulava na carteira fechada apressadamente.

Texto publicado na revista Aboio

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