Diário de uma cruz

1 de novembro de 1808

Sou Bebel. Filha de Mawewe, um dos grandes de Mataca. Uma bantu ajua. Agora que aprendi a língua dos brancos e sou uma escrava liberta, inicio o relato da minha história, que é, também, a de todos os escravos.

Cheguei ao Porto do Recife, no navio negreiro Amável Donzela, em 1791. Também eu era donzela. Valeu-me a proteção do capitão do barco a todas as meninas. Éramos mercadoria valiosa. Ainda assim, marcadas, à partida, nas costas, com o ferro em brasa. Afastadas da lascívia dos marinheiros, não escapámos, no entanto, ao terror da fome e da doença, dos assassinatos e dos suicídios. À chegada, um mês depois, éramos pouco mais de metade.

A primeira visão que tive do Brasil foi a Cruz do Patrão. A altaneira coluna, encimada por uma cruz, recebeu os meus olhos negros, perdidos no medo. Por entre gritos, íamos sendo arrastados para a praia. Não percebi logo de onde vinha aquele fedor nem o que eram os pedaços negros, espalhados por ali. Assim que pisei a areia, deixei de ouvir. Não compreendia as ordens que me gritavam, mas a linguagem do terror é universal. Não emitíamos sons. Nem os que, atados a postes que circundavam a cruz, eram chicoteados até aos ossos. Dispuseram-nos, em fila. As meninas, os homens e as mulheres. Nus. À mercê dos brancos que nos examinavam os corpos.

Fui comprada pelo Senhor de Engenho Albuquerque e Castro, que me levou para a fazenda, junto à margem esquerda do rio Beberibe. Tomou-me ao seu serviço. Todo o serviço. Os orixás abençoaram-me com a graça de não emprenhar. Certa noite, no meu quarto, partiu a garrafa de álcool já vazia e aproximou-a do interior das minhas coxas. Queria saber de que cor era o meu sangue. Via-o desde os meus treze anos. De súbito, os olhos pareceram saltar-lhe das órbitas e deixou cair a sua monumental barriga em cima da garrafa partida. Na grande faca de cozinha espetada nas suas costas vi a maldita Cruz do Patrão. De pé, D. Branca não expressava nenhuma emoção. Entre ambas, tratámos do assunto. D. Branca trouxe-me para o Recife e alforriou-me. A Cruz do Patrão atraía-me como a luz a borboletas.

Um dia, mentir-vos-ão sobre esta cruz. Deixo-vos a minha palavra.

Sou Bebel!

Publicado na revista Aorta

Anterior
Anterior

Reinventar a coragem

Próximo
Próximo

Rosas e champanhe