Reinventar a coragem

O relógio, ainda vivo no cadáver do companheiro, martelava os vinte minutos de silêncio. Amarinhou por cima dos corpos pegajosos, pedaços de carne quente, resquícios de jovens alegrias de há um mês. No cimo da vala, avistou o outro lado. Da fronteira e da vida. A nobreza ou a deserção. A poucos metros, o buraco na rede, o celeiro bafiento do professor de História, o jardim da namorada. A memória da casa. Incorreto? Apertou uma irreconhecível mão decepada. “Prometo merecer cada batida do meu coração! Por nós!”. Esvaziou a mente do dilema e deu o seu salto no escuro. Um salto para a vida.

Texto publicado na revista Letra Miúda

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