Luciana J. Morais

O que o amor faria no meu lugar?

“Deves perder o teu coração

e buscá-lo em todos os lugares.

Quando o encontrares,

o descobrirás  como o coração

de todas as coisas .” Sri Ram 

 

Marina, a menina do mar, namora o céu e sente as estrelas. Aos seus olhos, presentes de amor. É capaz de ficar horas a contemplar o manto negro pintado de brilhantes. É capaz de contemplar tanto que alvorece em tons de azul, branco e luz. O encanto permanece. Sabe a diferença entre olhar e ver. Observar e contemplar. Ela namora. Marina namora o céu e o silêncio.

Da origem molhada, não somente espalhava-se em tudo que fazia. Transbordava. De alma doce temperava suas ondas. As ondas de seus cabelos claros combinam com os sorridentes olhos azuis. Beleza inesquecível de juventude graciosa. Assim como a deusa que nascera no mar, harmonia e sensualidade faziam-na buscar suavidade na existência. E realizava. Em seu coração, água a dançar a canção das ondinas. Os espíritos das águas são dentro e fora dela. Vida consagrada à delicadeza e sensibilidade.

Da infância feliz, a espontaneidade reinou até quando não pôde mais saber se estava sã ou louca. Nem sempre é óbvio perceber a falta de semelhança. O passado é o que foi ou o que permanece a lembrar? O que tortura a ausência ou o nada, apenas? Ou é tudo que se pode ter?

A natureza do universo circular, perfeito e infinito, na subtileza do todo ilimitado era assim. Na essência e no essencial. Marina vivia em cenário aquático como uma simbiose uterina. Conchas, pedras, estrelas, plantas, sol, mar, lua e barcos. Os muitos barcos da sua vida. Do nascimento ao naufrágio. Ondas que vão e vêm. E que sempre trouxeram de volta tudo que registrava na areia, como um sinal de que nada se perderia. Ou pelo menos, quase.

Livre, optava por aprender na observação e na convivência com os experientes seres beira mar, além da escola natureza, à disposição para todos. A sabedoria dos que chegaram antes dela e conheciam os segredos e mistérios do mundo não conseguiram consolá-la. Foi o próprio sentimento que a fez realmente aprender o que significava aprender.

A brincar pela praia, mergulhar e navegar o mar; e sentir tudo que uma aldeia de pesca tem, Marina celebrava a vida em comunhão à Mãe Terra. A que contém todas as águas, que se movimentam com o ar e aquecem-se com o fogo do sol, dos corações e das paixões.

Peixes, sereias, ninfas, em imaginário e realidade. Ela tinha tudo às mãos. E aos pés. Descalços que corriam por todo lado. Dançavam com o vento e os cabelos. Voavam ares frescos para todos respirarem.

Suas sinapses eram como as constelações que ela sabia ler. A Lua era uma bússola para o lugar; e para ela, uma mestra fundamental. O universo do mar, da natureza, da vida conectada às suas águas originais era tudo que ela conhecia. Muito bem e detalhadamente. As alegrias da fartura e prosperidade que vinham do mar. As tristezas e lágrimas que também ele continha, logo veio a saber.

Toda sua ancestralidade estava ali. O conhecimento marítimo era herdado com orgulho e a sina vivida com amorosidade. Seus pais, sabedores da sobrevivência na aldeia do mar, cuidavam para que ela continuasse. A comunidade fortalecia-se assim. Geração a geração.

A prática e a subtileza juntas no quotidiano. Espiritual e material. Tudo compartilhado, no todo a funcionar, com respeito à sacralidade da vida. Vida enquanto respira é sábio ponderar. Vida sem o alento é sábio compreender. Marina não era sábia. Ainda. A compreensão dos ciclos implica em perceber os finais como recomeços e para quem vibrava a beleza das coisas, este era o último aprendizado, se é que existe um derradeiro aprender.

Quando às intempéries da vida, era abençoada com proteção e flores em seu caminho. Mas tudo é impermanente. Todos os caminhos o são.  A leveza de seus gestos e de seus olhos enrijeceram-se, mesmo a parecer impossível que pudesse chegar a esta altura. Paralisada diante tudo, Marina não sabia mais nada.

Foram tantas águas que o barco não voltou. Destroços de saudade foram encontrados com a única sobrevivente. A mesma que viu a morte de seus amores terrenos.

 Sem consciência, não percebia seu lugar na (de)ordem (in)correta do universo, no propósito dos acontecimentos, na adversidade (quase comum?) em uma aldeia de pescadores.

Foram tempos até conseguir vencer o silêncio. Nem os olhos falavam mais. Tristes azuis sem brilho. Avó Serena, oráculo que respira, estava ao lado. Todo o tempo. A esperar o dia em que Marina se despediria daquela letargia. E finalmente conseguiria ouvir os pássaros embalados ao som do mar, ver o céu azul com sol. E negro com estrelas. Finalmente tentaria a sanidade. Uma escolha difícil, cheia de dor. E necessária.

Avó Serena. Sabedoria que se movimenta deu a ela um amuleto. Um mantra. Uma carta de presságio. Para se apegar em momentos onde faltariam chão, direção ou razão...

Seria suficiente? Seria eficaz? Não haveria meio de saber se ela não o usasse. Se não conseguisse nem isso. As ondas dos cabelos impregnadas de desmazelo não conseguiam. Esta era a estagnação do tempo.

— Tente, amor.

— Vou tentar, prometo. Um dia.

Mais tempo. O tempo é de cada um. No mar, sensível a tanto sal, temperá-lo com chá de flores. Sensível a tanto céu, adoçá-lo com mel; sensível ao sol, integrar amor e amar. Não. Não. Não. Não é fácil ser retirada de um idílico sonho.

O amuleto estava com ela. Avó Serena sabia das coisas. Era uma pergunta delicadamente feita para estas horas. Para os desafios da vida. Para quando a esperança não vinha ter com Marina.

E ela nadava em direção a nada... nada para indefinir-se, para ser todo corpo vazio, cheio de nada. E apenas.

Quando não se suporta mais morrer em vida, quando não se suporta mais o peso do luto e da luta para mantê-lo, Marina rendeu-se ao olhar pelas lentes de Serena. O que o amor faria no meu lugar? Precioso presente que a avó lhe dera e sustentou: seja o amor.

Singelamente começou a imaginar o amor, aquele que não se imagina, apenas se sente. Era quase divertido.

O que ele faria no meu lugar? Bem aqui, no meu lugarzinho de dor? Acho que não ia rir-se de mim ou não teria pena... acho que me abraçaria...

Sim! E ela própria a abraçava.

Usar a pergunta que a avó Serena lhe dera passou a um jogo de sobrevivência e Marina imaginava o amor. Ah, o amor... a ter uma atitude em resposta ao todo tudo que a cercava, que a habitava.

E o amor escolheu acolher. Relevar. Brincar. Compreender. Chorar. Abraçar. Beijar. Colocar-se no colo. O amor sabe ser terno. Tem carinho. Tudo envolve, tudo é. Marina era o próprio amor. Marina era simplesmente amor.

E o tempo-medicina, suas alquimias e sabedoria fizeram renascer sorriso e vida. O que o amor faria no meu lugar?  A mágica de se redescobrir. Reinventar-se. Caminhante e pertencente. Enamorada. Menina do mar. Sonhadora e madura. Alinhada ao fio da alma que canta. Águas que agora purificam e lavam. E perdem-se e encontram-se em todos os lugares, ondas. Em todos os lugares estava seu coração, estava o seu amor.

Ao tornar-se mãe e transbordar-se – novamente – ela sabia que era o amor e serenava naturalmente. A continuar o ciclo da vida. A eterna impermanência. A eterna aprendizagem.







Biografia




Luciana J. Morais é educadora, formada em pedagogia e pós-graduada na área da Educação. Leitora apaixonada, enveredou pelos campos gramaticais e semânticos da revisão de textos. Trabalha como freelancer para editoras e autores independentes.

Colabora como autora em revistas digitais. Das portuguesas destaca a Palavrar, a Sarabatana (editada em português e espanhol), a Fábrica de Terror e a Agenda Poética da Ofélia. Das estrangeiras, Contos de Samsara, Aorta, Fluxos, Fruta Bruta, Cartola. Publica, também, na Meer (editada em 6 línguas).  

Figura em várias antologias brasileiras e portuguesas: Antologia Os sete pecados capitais – Preguiça e Antologia Os sete pecados capitais – Inveja (Editora Cartola); Haimi – o sabor do haikai (Editora Pangeia) e 40 autores, 40 contos (Edições No tag).

Aguarda publicação em quatro antologias Portugal em 2025: Luz e sombra - da lente ao papel; Antologia de contos – Transatlânticos; Antologia de poesia – Transatlânticos e Livro de contos – Editora Subsolo.

Intrépida tripulante do «Clube de leitura Transatlânticos». Gosta de abraços e flores. Consulta oráculos e toma chá. Medita e faz artesanato. Mãe de dois adolescentes incríveis. Brasileira que vive em Coimbra desde 2020.








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