NUNO AMARAL JORGE: pensar outros mundos
Nuno Amaral Jorge fala-nos da sua paixão pelas palavras e, em particular, sobre um género de literatura emergente.
«Gosto de personagens contidos, mas altamente torturados internamente, como se dançassem com as suas dúvidas em cima de brasas.»
Nuno Amaral Jorge é um homem de vários interesses. Jurista, é fotógrafo amador, bibliófilo e escritor. Nesta área, é guionista de Banda Desenhada portuguesa no projeto Apocryphus desde 2016. Publicou dois volumes de contos infantojuvenis, A Joaninha ao Contrário e Outras Histórias em 2018 e O regresso da Joaninha ao Contrário em 2023, ambos pela editora Ideias com História. O seu primeiro romance, As três mortes de um homem banal, surge em 2019, na Editora Planeta. Tem contos publicados em diversas antologias, nomeadamente na Quetzal editores, na Editorial Divergência e na Fábrica de Terror, onde participa regularmente. Recebeu o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em conto de 2024. Surge, agora, o seu segundo romance, A Passagem.
Paula Campos (PC) – A pergunta inevitável para um escritor: quando e como surgiu a escrita na sua vida?
Nuno Amaral Jorge (NAJ) – Esta é uma daquelas perguntas que pode, de facto, ter várias respostas. Se for pelo ponto de vista absoluto, ou seja, quando é que comecei a ter vontade de escrever e contar histórias através desse meio, então terei de recuar à escola primária. O meu primeiro esforço foi uma banda desenhada, mal-amanhada, com um enredo que, lamentavelmente não recordo, mas que distribuí pelos meus colegas, os quais, pelos menos os mais simpáticos, pediram sequelas.
A escrita mais militante surgiu logo no liceu, com contos e histórias maiores, todas bem guardadas, que na verdade é onde devem estar, mas foi algo que, desde os meus doze, treze anos, nunca me deixou descansar. E comecei a pensar mesmo que queria escrever estruturadamente depois de ler o livro Estações Diferentes, de Stephen King, por volta de 1989-1990. A novela O Corpo foi decisiva para esse efeito. Queria contar uma história daquelas. Ou parecida àquela. Queria pôr palavras umas diante das outras.
A partir, mais ou menos, do ano de 2003, comecei um blog e escrevi histórias longuíssimas, também bem guardadas, e escrever tornou-se uma espécie de obsessão, um repositório das minhas formas de expressão, até em aspectos em que um certo estoicismo me torna, confesso, algo contido ou mesmo pouco hábil.
PC — Que autores mais o influenciam?
NAJ — Bom, tenho sempre uma certa curiosidade quando encontro alguém que isola o escritor ou escritora “X” como o supremo acima de todos. Tendo a colocar isso em causa, mas, sim, como todos, creio que tenho o meu panteão, e certamente que muitos podem considerá-lo estranho ou “desigual”. Além disso, é evolutivo, já duas das minhas paixões mais assolapadas são relativamente recentes, e refiro-me a Julian Barnes e Rosa Montero, cuja obra é algo de tão assombroso que, por vezes, até desacelero a leitura só para saborear e sublinhar aquelas palavras, frases e parágrafos.
Mas influências directas? Na literatura-ficção - Stephen King, claro, o instigador de tudo, Edgar Allan Poe, Cormac MacCarthy, Julian Barnes, Gillian Flynn, Margaret Atwood, Rosa Montero, John Ronald Rueuel Tolkien, Bram Stoker, Harper Lee e os portugueses como o Eça, Camilo, Dulce Maria Cardoso, Alexandra Lucas Coelho.
Na Banda Desenhada / Comics, que é um veículo extraordinário para ver a escrita materializada, tenho um panteão onde estão os, para mim, insuperáveis, Neil Gaiman, Alan Moore, Uderzo & Goscinny, François Bourgeon, Pierre Christin & Jean-Claude Mézières, e Garth Ennis.
Embora haja muitos outros cujas obras, mais ou menos singulares, influenciam mal se tem contacto com elas, talvez aquele seja o panteão base, e a fundação de toda e qualquer ferramenta ou forma da qual me tento servir, por admiração e “absorção”, para escrever um parágrafo que seja.
PC — Apesar de estar ligado à Banda Desenhada e de já ter escrito histórias infanto juvenis, é outro o género de literatura que o atrai. Fale-nos dele.
NAJ — Ora bem, embora possa parecer que os meus principais gostos e esforços tendem para o Fantástico e/ou Gótico, a verdade é que não se esgotam aí. O meu primeiro romance está completamente afastado de qualquer elemento fantástico, embora seja aí que muitas vezes me encontro, é verdade. Mas tanto vibro com uma releitura do Drácula, como o último livro da Rosa Montero, já que “roubando” as expressões de S. King, escrever ficção é mentir, é contar coisas que não existem, mas encontrando sempre a verdade dentro da mentira. Sem esta exigência, o leitor não crê no que está a ler, não se evade, não é convencido.
Sim, há algo na literatura gótica/fantástica que me atrai muito, porque apela à força motriz da imaginação, mas permite mergulhos muito profundos no estudo da natureza humana, quando forçada a certos limites. Há algo de elegante e revelador no manuseio do medo, da violência, mas em meu ver, jamais niilista, e sempre na perspectiva de passar uma ideia através de um veículo que a torna eficaz, intensa e, sim, apaixonante.
Além disso, como começou tudo? A Odisseia? Épico de Gilgameš? A Divina Comédia? A própria Bíblia? E o Hamlet, MacBeth e a Tempestade? E o Kalevala e Beowulf? Não são eles o início da literatura, da poesia, da ficção narrativa? E assentam em mitos, seres fantásticos, aterradores, através dos quais se contam as mais básicas e essências narrativas humanas. E assim transito para a pergunta – porque será que nos dias contemporâneos, o fantástico é visto como menor? Além de snob, parece-me uma posição ilógica, e completamente desrespeitadora das bases de tudo, das palavras, das histórias, de imaginar e criar.
Vamos dar um exemplo – Drácula do Bram Stoker. Clássico absoluto, escrito como uma forma de ensaio sobre a sexualidade contida da época vitoriana e os “monstros” associados a uma sensualidade mais visceralmente humana. Fala de amor, transgressão, medo, solidariedade, e é uma obra completa assente num mito que alguns creem ter nascido de catatonia que gerou enterros prematuros ou padecentes de uma doença chamada Porphyria e que gerava fotossensibilidade, palidez mórbida, loucura e que podia ser combatida com a ingestão directa de hemoglobina. A imaginação escura é um terreno tão fértil que simplesmente não entendo a resistência.
PC — Escreve sobre o que gosta de ler ou lê outro tipo de literatura?
NAJ — Em parte, esta questão está respondida acima, mas na verdade, por exemplo, gosto muito de estudos de personagem, narrativas sobre a contradição humana, a desconstrução e as boas perguntas sobre as nossas emoções e putativas certezas, e nisso, escritores como Barnes, Atwood ou mesmo Roth são exímios e, destes, apenas Atwood coloca um pé ocasional em matérias mais fantásticas. O seu Handmaids Tale é uma distopia soberbamente bem escrita e aterradoramente credível porque os monstros são, afinal, humanos. Assim como no caso de McCarthy, e as suas narrativas belissimamente construídas, escritas como uma sinfonia e negras como uma mina à meia noite.
Na verdade, gosto de narrativas com linha condutora e sequencial, mas também onde os intervenientes são analisados e aprendemos coisas sobre como pensar, como colocar em causa várias ditas certezas e, assim, aprender tanto mais. E a humanidade jamais niilista, embora também com desconfiança perante o optimismo.
PC — No ato da escrita pesa mais o interesse do leitor ou escreve para si?
NAJ — O Kafka pediu a um amigo que destruísse o seu material não publicado. O Sallinger fechou muito material na gaveta, “certo” de que não seria lido. Mary Shelly e Phillip Larkin a mesma coisa. Ora bem, quem não quer ser lido, quem não deseja passar essa telepatia diferida seja para quem for, destrói o seu trabalho e pronto. Posso estar equivocado, mas não acredito que haja uma pessoa que escreva de forma militante, fazendo-o para a gaveta. Não acredito em reais escritores que não pensem ou queiram quem os leia. O Joyce escreveu uma obra muitíssimo complicada de decifrar (Ulisses - que confesso não ter lido, embora já tenha tentado mais que uma vez), e há quem diga que o Dom Quixote (que eu, filisteu assumido, também ainda não li) é a obra prima mais ilegível de sempre. E ainda assim, duvido que qualquer um desses autores maiores tivesse embarcado em tal empresa pensando em metê-la na gaveta. Por isso, escrevo o que gosto, acerca daquilo sobre o qual quero falar, o que sinto, penso, etc., mas obviamente que há algo que quero sempre transmitir, e se um parágrafo meu que seja toque alguém de forma real, terei ganho o dia. Bolas, terei ganho o ano!
No entanto, até acompanho o mercado editorial, vou vendo as ditas tendências, e há coisas que, por mais notoriedade e alcance que possam ter, jamais seria capaz de me debruçar sobre elas. Ou seja, é o equilíbrio entre o que me atormenta e o que acho que alguém gostará de ler.
PC — Antes e durante a escrita, há rituais? Um objeto em cima da mesa, uma música…
NAJ — Escrevo sempre com música ou algum barulho de fundo. Escrevi vários contos com o som da primeira temporada do True Detective a correr numa parte do ecrã do computador. Gosto de ter sempre algo para beber, da cerveja ao chá, do sumo de laranja ao whisky e confesso, não sem algum brando pudor, que uma ligeiríssima e ocasional embriaguez ajuda no trabalho, embora jamais me fosse possível fazê-lo de forma reiterada. Mas a rainha dos rituais é a música.
PC — Relativamente ao processo de escrita, qual é a parte mais difícil e a mais fácil?
NAJ — O mais fácil é sempre o início e o crescendo do conflito inicial. Aquilo a que os anglófonos chamam o “buildup”. A porta trabalhada da casa misteriosa, ou mesmo o hall de entrada. Os problemas começam quando os quartos e salas estão vistos e, ainda assim, é preciso criar a antecipação para o que vem a seguir.
O “miolo” da história é o mais complicado, porque ao desenvolver uma premissa, é fácil uma pessoa enredar-se nas dez mil ideias encadeadas que tem e perder – a história e o leitor que, saturado, nos grita lá do fundo – “Ok, já percebemos! Avança!”.
Os finais também podem ser complicados, porque um mau final pode arruinar uma história, ou pelo menos deixá-la manca. Mas é sempre a sustentabilidade da história, sem encher chouriços, que me parece o mais difícil, porque acredito que a angústia mais ou menos bem-sucedida do escritor em manter a história “de pé” que se traduz no gozo do leitor ao seguir embalado para chegar a qualquer lado. Com sorte, acaba por ganhar alguma coisa e ser mais feliz por ter entrado e saído de uma história, levando algo consigo.
PC — Discute com as suas personagens?
NAJ — Elas raramente me pedem opinião. Eu não planeio quase nada nas minhas histórias. Sou um situacionista que coloca uma questão constante – “e se…?”. Eu nunca pré-construo um enredo, (mais uma vez, o que os anglófonos chamam o “plot”). A história vai andando, não tenho senão uma leve ideia de como pode acabar, e é ela que manda. E raramente segue ou termina como penso.
PC — Sobre que tipos de personagens prefere escrever?
NAJ — Pessoas com dúvidas. Anti-heróis. Gente que comete erros, que tem fraquezas, que faz asneira, mas que também nunca escondem a humanidade que os caracteriza, em tudo o que de bom e muito mau a natureza humana tem. Gosto de personagens contidos, mas altamente torturados internamente, como se dançassem com as suas dúvidas em cima de brasas.
PC — Quando põe a primeira letra no papel ou no écran, já tem a história estruturada ou escreve ao sabor da inspiração?
NAJ — Como disse antes, nunca penso antes, nunca crio um enredo, muito menos um esquema, e trabalho em cima de uma premissa base, que se desenvolve como um organismo vivo e, sim, com alguma vontade própria. Por vezes descubro como as coisas vão correr no exacto momento em que estou a “martelar” no teclado.
A inspiração é, no meu caso, minoritária. Perfaz cerca de 7,5% do meu esforço ou trabalho dito criativo. Para escrever é preciso trabalhar, é preciso enfrentar o manuscrito especialmente nos dias em que não apetece, nem que seja um parágrafo para apagar depois. Mas o livro é como uma matéria prima culinária muito delicada. Se for abandonada por algum tempo, estraga-se de forma irreparável. É preciso ter a mão na massa constantemente – como diz o Neil Gaiman, quando lhe perguntam como ele consegue escrever aquelas histórias magníficas, e qual o método, ele apenas diz algo como – “Sentem-se e escrevam.”
PC — Faz muitas alterações ao plano inicial?
NAJ — Ele não existe. Só uma premissa base. Tudo muda.
PC — De todas as suas histórias e/ou personagens há alguma que o defina?
NAJ — O meu primeiro romance é autobiográfico por sensação. O que quero dizer com isto? Tudo o que lá se sente, analisa e pensa é real, mas, como quem ler perceberá, os factos não existem. A narrativa é ficcionada, mas tudo o que lá se passa tem uma base real, até mesmo orgânica. Talvez o personagem que mais me defina seja o urso das cores, no meu primeiro livro de contos infantojuvenis, porque é um animal que passa apenas a ver a preto e branco e aceita ajudar uma menina de cabelo azul que, se perder essa cor, morrerá. E enquanto tenta ajudá-la, as cores voltam, mas ele nunca deixa de saber quem é, na realidade, e como a melancolia é necessária para tudo o resto.
PC — Já precisou de abandonar uma história? O que o levou a tomar essa decisão?
NAJ —Várias vezes. Tenho muitas coisas “a meio” e a fundamentação pode ser variada:
· A história pára e não tenho mais nada para dizer;
· Tudo se torna muito difícil e artificial, e a ilusão perde-se, passando tudo a parecer forçado;
· Perdi a ideia inicial;
· A história é demasiado curta ou entra por matérias cujo meu desconhecimento é demasiado comprometedor;
· A história aborrece-me
· Etc.
PC — A propósito do noir, todos temos fantasias obscuras?
NAJ — Na verdade, acho que sim. Basta, por exemplo, ler o DSM para perceber que a nossa psique é um poço sem fundo, e a negritude faz parte de todos. Assustam-me as pessoas que dizem não a possuir ou que são tão luminosas que nunca têm um mau pensamento. Sinceramente, acho-as até perigosas, porque a natureza humana é claramente uma dicotomia, sendo nós capazes do mais admirável e do mais horroroso. Não quero com isto dizer que as pessoas imaginam cortar alguém às postas, mas arrisco a dizer que não há uma pessoa no mundo que nunca tenha experimentado alguma forma de shadenfreude, ou o prazer pelo desgosto/ má fortuna de um outro. Aliás, sem o conflito interno humano, acho que não existia literatura ou qualquer outra forma de arte.
PC — Também escreve sobre a atualidade. É importante que um escritor se posicione sobre o mundo que o rodeia?
NAJ — Acho essencial, porque na verdade, até a história mais escapista tem de ter uma reverberação com o mundo que as pessoas, e até mesmo o autor, experienciam, sendo isso que dá um certo peso e sensação de familiaridade conceptual. Dos momentos mais compensadores da literatura, acho eu, ocorrem quando o leitor lê algo e diz, “porra, é mesmo isto! Era isto que eu pensava, mas não tinha conseguido articular assim!” Se um autor conseguir isto de forma recorrente, vai ganhar o mundo. Acredito mesmo nisso. É por essa razão que o Shakespeare continua a ser actual, e o Homero, e o Aristóteles.
E informação é liberdade. Não existe uma sociedade livre e mal informada, e por associação, o mesmo vale para um autor. É um contrassenso em termos.
PC — Podemos considerar que a sua escrita é a expressão de uma certa insatisfação sobre o mundo real?
NAJ — Eu tenho um traço de melancolia que nunca me abandona. Não sou optimista, mas rejeito o niilismo. Optimismo desmiolado e niilismo parecem-me duas faces de uma mesma moeda de irresponsabilidade imatura. Prefiro analisar as coisas com cautela, prever maus cenários, e surpreender-me com as coisas boas. A insatisfação é uma forma de respeitar o mundo, porque esperamos sempre algo dele através do conhecimento de todos os seus componentes. Não há nada pior nem melhor no mundo que a natureza humana, e isso, em meu ver, permite, no máximo, um realismo musculado com sentido de humor. Já o niilismo parece-me sempre uma cobardia e com algo de malignidade, sinceramente. Sou um privilegiado, bem sei, vivo na “parte com sorte” do mundo, mas isso não me cega ou me torna dormente perante tudo o resto no mundo. Como é que dizia o Pessoa – Dói-me a cabeça e o universo? Algo assim.
PC — Como é que a sua vida profissional, familiar e social se entrelaça com a escrita? Convivem saudavelmente ou entram em conflito, por vezes?
NAJ — Eu digo sempre que tenho dois trabalhos. Ambos exigentes, ambos cansativos, mas só um deles nasce, segue e depende de mim. Sei que se não tivesse um trabalho que paga contas, que escreveria muito mais, porque leria muito mais e teria rotinas de trabalho criativo sem o cansaço e stress de outras fontes. Mas não tenho uma herança nem um fundo fiduciário, e gosto de ganhar a vida. Tenho dois trabalhos. É isso.
Familiar e socialmente, preciso de tempo para ler e escrever. Isso rouba tempo a amores e amigos, mas na verdade, e passo a aparente piroseira, também o faço para e por causa deles. Quero também dizer coisas e que as pessoas de quem gosto possam orgulhar-se, pelo menos, da minha tentativa honesta. Sou um bocado bicho do mato e com a idade a coisa piora, mas não há dúvida que nem sequer conseguiria trabalhar sem os meus indefectíveis. Na verdade, não conseguiria fazer nada. Talvez fosse viciado em tristeza, e isso é perigoso, mesmo para quem quer enfrentar a página.
É solitário, mas ir para junto do meus quando o teclado arrefece é algo do qual não prescindo, e acho perigoso fazê-lo. Aliás, a ideia de que a criação só surge numa espécie de terra devastada humana é uma enorme falácia, e acho que em muitos casos é uma pose, porque se o trabalho não prestar, a vida dissoluta é só isso mesmo. O Bukowski era um bêbado indigente, mas o Goethe e o Umberto Eco eram génios bem-sucedidos e inseridos na sociedade. Há de tudo.
PC — A sua vida pessoal influencia as suas histórias?
NAJ — Sim, especialmente a traumática. A morte do meu pai, infelizmente, deu-me mais matéria prima do que gostaria, e tenho um livro na cabeça que o envolve e que sei que acabarei por escrever. Mas se é certo que o trauma gera material, é a superação possível do mesmo que acaba por dar corpo inteiro às narrativas, sempre com a ideia de que se faz o melhor possível, e nada, mas mesmo nada, é perfeito.
PC — Qual a sua opinião sobre o mercado editorial atual e as novas formas de publicação?
NAJ — Bom, embora isto seja algo que parece uma “lapalissada”, acho que é quase unânime que as editoras, em especial as “grandes”, medem a rentabilidade do material muito antes da sua “qualidade” (e sei que esta é uma discussão gigantesca). O mercado livreiro luta com publicações em cima de publicações, à espera que lhe caia a próxima J.K. Rowling, Sally Rooney ou George R.R. Martin, mas a verdade é que há muitos livros que são publicados pela notoriedade dos seus autores, e não exactamente porque haja um corpo sério e dedicado de obra feita. Lá está, vende, as editoras preferem, mas felizmente ainda há muitas que vão garantindo um mercado para a qualidade, e oportunidades para alguns poderem espreitar. A rede de contactos dita muitas regras, mas ainda há qualidade e (demasiado poucas, é certo) oportunidades.
A reflexão a fazer poderá versar sobre a ideia do que pode, ou não, ser o critério editorial, e o quase genérico amadorismo das estratégias de comunicação para os livros. As excepções geram vendas e tiragens muito satisfatórias, como é o caso da Tânica Ganho, a Filipa Martins, o João Tordo e o Afonso Cruz, autores que não são exactamente os habituais pesos-pesados ou proto-clássicos, mas que são tornados visíveis por uma máquina bem oleada que leva às pessoas um trabalho sério, honesto e de qualidade, e a verdade é que essas mesmas pessoas ficam curiosas e compram os livros. A divulgação faz milagres, especialmente numa era de imagem e visibilidade maximalizada, e que existe desde o advento do “telefone-esperto”.
PC — Já há novos projetos delineados?
NAJ — Há sim, senhora! Um romance já escrito, mas que tenho de “esventrar”, reorganizar e preparar para submissão, quer a concurso, quer à edição em geral, e que versa sobre um futuro no qual as pessoas não dormem.
Um outro, que não sei se será novela ou romance, acerca de um homem que tem um tio que leva a sua namorada a ver a mulher, internada com Alzheimer, e que só intermitentemente o reconhece.
Um outro ainda, de que já falei acima, ficcionado, mas baseado no que foi crescer com o meu pai em vários períodos no tempo marcados pela música que ouvia, os livros que comecei a ler, as pessoas que conheci, as ocasiões em que me partiram o coração, e por aí fora.
Ainda estou de volta de alguns contos de cariz gótico e outros também algo eróticos, e que podem talvez gerar uma pequena compilação.
E, finalmente, tentar publicar uma colectânea de short-stories baseadas numa mistura entre o Halloween e o Natal, e que tem já mais de duzentas e cinquenta páginas.
Espero, sinceramente, poder publicar tudo isto, mas é sempre uma incógnita. O que não pode acontecer é parar de trabalhar. Isso em caso algum.