MIGUEL D’ ALTE | Entrevista

Um escritor comprometido com a qualidade.

“Tenho o compromisso comigo e com os leitores de só publicar o que realmente acho que tem qualidade.”

Miguel D’ Alte apresenta-se como um homem discreto. Dele sabemos que nasceu no Porto, em 1990, e que a sua paixão por viagens o levou a viver na República Checa, em França e em Angola, tendo-se fixado no Luxemburgo. Um apontamento sobre Buk e Lolita, os seus dois cães. Também são conhecidas as suas principais influências na literatura: Charles Bukowski, Michel Houellebecq, João Tordo e Joël Dicker.

Vamos conhecer um pouco melhor as suas opiniões sobre a escrita, em geral, a sua, em particular, e o mundo editorial.

  

Paula Campos (PC) – A sua área de formação é Economia. Quando e como surge a escrita na sua vida?

Miguel D’ Alte (MD) – Digo sempre que sou um leitor que se tornou - também - escritor. A escrita surgiu naturalmente, nem sei bem quando. Leio muito, e a vontade de contar as minhas histórias surgiu daí. Cresci rodeado de livros, e foram sempre um objeto mágico para mim.

PC — Porquê a escrita e não outra arte? Por exemplo, a música, já que gosta tanto de rock’n’roll?

MD — Tentei enveredar pela música, mas não tinha o talento necessário, nem trabalhei o suficiente para isso - não chega só ser talento. Em todo o caso, a música está sempre presente na minha escrita. Escrevo sempre com música, e em minha casa há sempre um disco de vinil a tocar.

PC — Que relações consegue estabelecer entre a escrita e a música, especificamente a que mais o atrai?

MD — Acho que a música ajuda a criar um ambiente propício à escrita, exponencia a sensibilidade. Como escrevo com auscultadores, permite também criar um distanciamento físico do que me rodeia.

PC — Já o ouvimos dizer que cursos de escrita criativa não lhe interessam, mas fez dois de ficção. Que importância tiveram na sua escrita?

MD — Estudei Escrita de Ficção, sim, além de também ter estudado revisão de texto, por exemplo. No meu caso, estudar escrita de ficção consistiu em debruçar-me sobre o livro com um olhar mais técnico, ler como um escritor e não como um leitor, perceber a estrutura, os diferentes momentos da narrativa. Esta aprendizagem serviu também de base para a criação do Henri Benoît, o escritor obscuro protagonista do meu primeiro romance, e o que ele ensina aos alunos sobre este ofício no ano letivo de 1967-1968, na Universidade de Sorbonne, mesmo antes do seu misterioso desaparecimento.

PC — Publicou o seu primeiro livro, O lento esquecimento de ser, em 2022, pela Edições Trebaruna. Quer contar-nos como chegou à editora?

MD — Quando terminei o meu romance, enviei-o a várias editoras tradicionais, e surgiu a oportunidade de publicar na Edições Trebaruna, uma chancela de ficção literária que estava a apostar em autores lusófonos, como o Jorge Afonso ou o Filipe Bacelo, que entretanto mudou para a Editorial Presença. Na edição do livro trabalhei com a Carolina Sousa, a quem estou muito grato pela aposta e ensinamentos.

PC — O título é bastante apelativo. Poderá este lento esquecimento de ser contrariar o conceito de Camões da libertação da Lei da Morte? A personagem principal, um écrivain maudit, não poderia ficar na História por um grande sucesso e pelo contexto em que se envolveu?

MD — O Henri Benoît é um escritor maldito e a criação desta personagem foi muito influenciado por escritores clássicos e polémicos, como Hemingway, Bukowski ou Céline, escritores que se tornaram imortais pelos livros que deixaram. No mundo ficcionado de O Lento Esquecimento de Ser, o Henri também jamais será esquecido, escapando da Lei da Morte. Sempre vi este título como algo diferente, como um homem que perante o seu exílio emocional - e físico - se esquece lentamente de ser, ao ponto de perder a memória e não reconhecer mais quem está na fotografia que tem na sala. Tenho esta imagem na cabeça, a de um homem que caminha e se desintegra lentamente, até desaparecer.

PC — O segundo livro, Os crimes do verão de 1985, saiu em 2023, pela Suma de Letras, uma chancela da Penguin Random House. Como se processou a mudança de editora e como é que isso impulsionou a sua escrita?

MD — Publicar na Penguin sempre foi um objetivo e um sonho. É uma editora com uma história e prestígio ímpares. Quando surgiu essa possibilidade, não hesitei. Mudar de editora, permitiu-me ter outra visibilidade nas livrarias físicas e chegar a mais leitores; dar um passo em frente na minha carreira e objetivo de me dedicar 100% a este ofício.

PC — Será impossível esquecer os livros anteriores, mas, neste momento, está, com certeza, focado no seu terceiro livro, já em pré-venda, nos sites da Wook, Bertrand, Fnac e Penguin, publicado, também, pela Suma de Letras. Conte-nos o possível sobre A origem dos dias.

MD — A Origem das Dias é um romance literário, como O Lento Esquecimento de Ser. Pode ser apresentado como um coming of age, acompanha Tomás Franco, um escritor falhado, na procura da verdade sobre o seu avô, Pierre Lacroix, e a literatura. É um livro melancólico, de cerca de 250 páginas, e que questiona a memória coletiva. No fim, o leitor decidirá se é ou não uma história de amor.

PC — Os seus dois primeiros livros estão bem ancorados no tempo e no espaço. Isso também acontece neste último? Que importância tem esta questão na sua escrita?

MD — A Origem das Dias também está ancorado no tempo, o fim da década de 90 e início da seguinte. Gosto que a escrita seja o mais real possível e ligar o livro a eventos reais, como o Maio de 68, em O Lento Esquecimento de Ser, ou a crise financeira e o escândalo da Casa Pia, em Os Crimes do Verão de 1985. Recentemente, um leitor disse-me que O Lento Esquecimento de Ser era um primeiro livro muito corajoso por não ter fugido a situá-lo no tempo e espaço. Penso que ancorá-lo desta maneira permite ao leitor ter uma ligação diferente à história e às personagens. Também é esse tipo de livro que mais gosto de ler.

PC — Três livros em três anos. Cada um demora um ano a escrever ou já os tinha preparados?

MD — Escrevo todos os dias. Vejo-o como um trabalho diário e também como terapia. Posso adiantar que A Origem dos Dias foi um livro que demorou quase uma década a escrever. Os outros que já publiquei demoraram cerca de um ano e meio, mas é difícil de quantificar pois gosto de ler e reler os livros até à exaustão. Tenho o compromisso comigo e com os leitores de só publicar o que realmente acho que tem qualidade. Publicar por publicar não faz sentido, a verdade é que podia ter publicado A Origem dos Dias há mais tempo, mas não seria esta versão. Foi preciso mandar para o lixo muitas páginas deste livro e trabalhar arduamente certas partes para chegar a esta versão. Neste momento encontro-me a trabalhar num novo thriller há quase um ano, e noutro romance literário há cerca de dois, e que está agora a repousar na gaveta durante uns meses para voltar a olhar para ele com outros olhos daqui a uns tempos.

PC — Que parte do seu processo de escrita é a mais difícil? E a mais prazerosa?

MD — A mais difícil é a primeira metade de cada livro. Nessa fase, sinto-me em alto mar. Sei mais ou menos onde quero ir, mas não vejo a costa, não sei se estou perdido, nem se vou conseguir lá chegar. A meio, começo a ver o fim. A partir daí sei que vou conseguir terminar o livro. Quando acabo o primeiro esqueleto do livro, começa a fase mais prazerosa, que é reler e acrescentar mais camadas e pormenores que deem consistência à narrativa.

PC — É notório que tem uma relação próxima com os seus leitores. Em que medida isso contribui para burilar a sua escrita?

MD — Gosto da proximidade com os leitores. Porém, o que gosto mais é de escrever. A fase de divulgação de um livro é sempre assoberbante, toda essa atenção dificulta a escrita, sinto-me sempre distraído e não me consigo concentrar. Mas faz parte do ofício. Além disso, é sempre prazeroso saber de que modo é que os meus livros impactam os leitores.

PC — É obrigatória a presença de um autor nas redes sociais?

MD — Não é obrigatória, mas as redes sociais permitem um contacto mais próximo com os leitores, o que é importante para quem quer construir uma carreira.

PC — Trabalhar com um agente é uma questão que começa a ter alguma relevância no nosso país, sobretudo se o autor pretender publicar no estrangeiro. É o seu caso? Tem um agente?

MD — O mercado português tem pouco espaço para agentes, pelo menos para agentes só dedicados à literatura, mas está a evoluir, quem sabe se não será possível a democratização desta figura. No meu caso, não tenho agente. Em termos de traduções, fazem falta agentes, mas, mais do que isso, uma aposta das entidades oficiais na promoção da língua portuguesa como marca, tal como os países nórdicos fizeram com os thrillers, hoje uma marca mundial.

PC — Nos últimos anos, assistimos a uma democratização da escrita. Multiplicam-se as editoras chamadas vanities, facilita-se o acesso à publicação de autor, as editoras independentes vão sobrevivendo e os grandes grupos editorias recebem dezenas de manuscritos, diariamente. Estará em causa a qualidade literária do que é publicado ou, pelo contrário, este boom incrementa a escrita dos novos autores? 

MD — Em termos gerais, uma editora vanity é apenas uma empresa de imprimir livros. Aconselho todos os autores a não o fazerem, se trabalharem o suficiente, o momento numa editora tradicional chegará. No entanto, também há várias editoras denominadas tradicionais que atualmente cobram aos autores para publicar, basta estar atento ao que chega neste momento às livrarias para perceber. É uma relação desonesta com o autor e que trai a literatura, pois, por regra, são livros com menos revisão e edição. Não há nada pior para o leitor do que entrar numa livraria, abrir um livro e encontrar gralhas ou erros gramaticais, ou levar o livro para casa e perceber que não houve edição e há incongruências, o que só afasta os leitores dos autores portugueses.

Ancorada também pelas redes sociais, há uma ânsia muito grande em publicar livros, mas para escrever um livro é preciso ter algo para contar, e para contar uma história é preciso saber escrever, e para saber escrever é preciso ler, e há novos autores que até se vangloriam de não ler, ou de serem leitores lentos.

Já as editoras tradicionais independentes são muito importantes, tal como as livrarias independentes, pois permitem que o mercado não esteja centralizado nos grandes grupos económicos. No exemplo que dei, os livros das editoras tradicionais que cobram a autores ultrapassam nas livrarias as editoras independentes, o que mostra que é o poder destes grupos e não a qualidade dos livros que publicam que os faz chegar aos leitores. Felizmente, no meio deste ruído há autores muito talentosos e que certamente vingarão.

PC — Voltamos ao Miguel. O que há de si nas suas personagens?

MD — Não tenho a certeza. Nenhum dos meus livros é autobiográfico, mas claro que as personagens carregam algumas coisas minhas, como por exemplo a obsessão.

PC — Vamos criar um cenário: é-lhe dada a possibilidade de ser amigo de uma das suas personagens. Qual escolheria e porquê?

MD — O Tomás Franco, o protagonista do meu novo romance. Mas não posso explicar porquê.

PC — Alguma vez sente que já tudo foi inventado e contado?

MD — Acho que não foi tudo inventado. Existem várias maneiras de contar uma história, e os tempos mudam. A literatura permite-nos saber o que aconteceu em determinado momento exatamente por o tempo existir.

PC — O que acha que só o Miguel pode escrever?

MD — Acho - ou espero - que os meus livros têm uma voz própria, identificativa. Nessa voz, só eu posso escrever os livros que escrevo. Em termos de temas, gosto muito de explorar a passagem do tempo, a dualidade das memórias; conflitos internos, solidão, isolamento, culpa.

Já em pré-venda na Wook, Bertrand, Fnac e Penguin

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