BRUNO PAIXÃO | Entrevista
O homem para além das palavras
Com a generosidade que o caracteriza, Bruno Paixão concedeu-nos uma entrevista, orientando-nos num mergulho ao seu mundo exterior e interior.
“Há palavras escritas que gritam mais que a voz.”
O percurso profissional de Bruno Paixão é sobejamente conhecido pela sua carreira multifacetada.
Nasceu em Coimbra, em novembro de 1975. É doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra, é professor e investigador.
Foi jornalista, é cronista regular na imprensa, nas áreas da corrupção e do escândalo político, e autor dos livros de crónicas Prime Time is my Time (2017) e Fake Time is not my Time (2021), que exploram as encruzilhadas em que se encontram os media, a política e a sociedade contemporânea. A sua obra literária é, como se infere, marcada pela crítica social e pela análise dos meios de comunicação. É, também, autor de outros livros de âmbito académico.
No final da década de 90, participou na fundação da publicação universitária de defesa dos Direitos Humanos Enviado Especial. Em 2000, presidiu à Comissão Executiva do Congresso “Pensar Portugal”, com o Alto Patrocínio da Presidência da República. Entre 2000 e 2004, foi membro da direção da Associação Portuguesa Para o Estudo da Propriedade Intelectual.
Exerce atualmente, por nomeação, a função de diretor da Fundação INATEL, em Coimbra. É membro fundador do coletivo informal “Questão Coimbrã”.
Em parceria com a Porto Editora, dinamiza um programa de incentivo à escrita, que vem fazendo visitas a escolas de todo o País, para mostrar aos alunos do Ensino Secundário que “uma boa história pode mudar uma vida”, disse ao Diário de Notícias, em 2023.
Os segredos de Juvenal Papisco, obra vencedora do Prémio Literário Luís Miguel Rocha e finalista do Prémio Livro do Ano da Bertrand, na categoria de Ficção Lusófona, é o seu romance de estreia. Mas já está no prelo o seu novo romance, que será apresentado em 15 de setembro, no Convento de São Francisco, em Coimbra, a sua cidade geográfica e afetiva.
Paula Campos (PC) – Passou toda a sua infância numa aldeia dos arredores de Coimbra. Como foi o seu contacto com a palavra escrita?
Bruno Paixão (BP) – Naquela altura não havia livrarias ou bibliotecas perto de mim. Nenhum dos meus amigos se interessava pela leitura. A minha tia, que era professora primária, oferecia-me sempre um livro no Natal. Esse era o livro que havia de durar o ano inteiro.
PC — Lia-o várias vezes?
BP — Várias vezes e de maneiras diferentes. De trás para a frente, alternando capítulos, fantasiando episódios. A escassez costuma ser cúmplice da criatividade.
PC — Desses livros oferecidos, lembra-se de algum que o tenha marcado?
BP — “Um bom diabrete”, da Condessa de Ségur, uma russa exilada em Paris, nascida no final do século 18, que começou a escrever tardiamente para os netos. Ainda hoje o conservo.
PC — Em que momento sentiu o apelo da política?
BP — Não sei se será bem um apelo ou, antes, um imperativo cívico. Desde que me conheço que me insurjo com as injustiças, as desigualdades, o desrespeito pelos outros e a mentira do populismo que opta por espalhar desinformação e desvaloriza os ideais, resumindo tudo ao instantâneo, ao insulto e a uma comunicação conspurcada.
PC — O que mais influenciou a escolha do curso superior: o gosto pela palavra ou pela política?
BP — Fui influenciado por ambos.
PC — Enquanto jornalista, viajou muito e conheceu pessoas bastante interessantes. Como é que o modificaram, enquanto ser humano?
BP — Marcaram-me muito mais as pessoas ditas anónimas, do que presidentes ou governantes.
PC — Por exemplo?
BP — Em Chitagong, uma localidade do Bangladesh junto à baía de Bengala, recebi de uma menina um pequeno cartucho de amendoins. Não teria mais de dez anos e andava a vender às pessoas que se aproximavam para ver o mar. Era a sua escravatura de pobreza. Falei um pouco com ela, afaguei-lhe o rosto. Disse-lhe que era bonita e que tinha uma vida pela frente. Paguei-lhe o suficiente para uma semana inteira. Continuei a caminhar e ela apareceu-me em corrida com o dinheiro na mão. Devolveu-mo, porque o afeto e o facto de alguém lhe prestar atenção foi mais importante para si. Ainda hoje, vinte e cinco anos volvidos, me emociono quando penso naquela criança e me pergunto o que será dela.
PC — O seu percurso mostra-nos um homem com um sentido cívico profundo, quase com uma missão.
BP — Sou neto de uma mulher analfabeta, que não teve a oportunidade de estudar nem de brincar. Viveu e morreu com essa condição. Estudei por ela, sou para os outros aquilo que a minha avó era.
PC — Há pessoas que gostam muito da sua terra, outras que cuidam, efetivamente, dela. O seu amor a Coimbra está profundamente enraizado em si. O que faz pela sua cidade?
BP — Por Coimbra, tudo! Corre no nosso ADN a História desta cidade, as pessoas, as ruas, o rio, as vidas que já se foram e as outras que hão de vir, a canção de Coimbra, a Universidade, a Baixa, os cristãos, os judeus, os árabes… E há algo que liga tudo isto: a Cultura! É por essa razão que sou interventivo. Não sou membro de nenhuma associação, mas participo em várias. Desde as ambientais, às que cuidam do espaço verde, às de discussão cívica e, naturalmente, às culturais. Em todas elas me empenho para servir os outros, com sonho e ambição.
PC — Coimbra é mesmo the right place to be?
BP — Podia ser, tem tudo para ser. Mas não é, infelizmente... O espaço público está em degradação acentuada, as ruas estão desmazeladas, há lixo por todo o lado, há zonas inacessíveis, as obras são um atentado ao planeamento, as pessoas parecem servir apenas para as estatísticas, os transportes coletivos não funcionam, as árvores centenárias são cortadas, os jardins estão sem dignidade, a qualidade do ar é imprópria, há cada vez mais sem-abrigo, o preço das habitações atingiu valores proibitivos, o Município está a criar um mega gueto para empurrar as pessoas vulneráveis para fora da cidade. Em suma, todos os dias estamos a perder qualidade de vida.
PC — E Coimbra é mesmo the right place to visit?
BP — Para ser um bom sítio para visitar, tem antes de ser um bom sítio para viver.
PC — Isto mobiliza-o para a intervenção cívica?
BP — Mobiliza sim. Faço-o metendo as mãos à obra, mas também, e sobretudo, através da escrita, que é uma outra forma de militância política. Há palavras escritas que gritam mais que a voz.
PC — O seu primeiro romance, Os segredos de Juvenal Papisco, ganhou o Prémio Literário Luís Miguel Rocha e foi finalista do Prémio Bertrand. Porquê um romance?
BP — Por vezes a vida real é tão dura, que sabe bem abordarmos a existência através da ficção. É uma forma de dialogarmos connosco próprios.
PC — Houve, na forma de escrita, uma influência do seu trabalho jornalístico e académico?
BP — Todos somos uma construção de influências, e daí que estejamos em metamorfose constante. Reconheço que, na forma como narro, há uma clara influência jornalística, mais concretamente da reportagem. Mas não vislumbro que haja nos meus romances uma contaminação da escrita académica, que é muito litúrgica e sisuda.
PC — De onde surgiu a inspiração para esse livro?
BP — Já o contei antes. Comecei a escrever o meu primeiro romance porque tinha uma história na cabeça. Não sei o que aconteceu, mas quando dei por mim a história já era outra, o tempo era outro, o lugar era também outro. Percebi mais tarde que o padre que se converteu em personagem principal da história, era, afinal, uma inspiração fantasiada de um padre que havia entrevistado anos antes.
PC — O Jornal de Notícias fez uma reportagem consigo e com o Padre Fontes, juntos em Vilar de Perdizes.
BP — Foi um encontro muito feliz. Passei um dia com ele, visitámos os sítios onde havíamos estado há duas décadas. O Padre Fontes assinalou no livro as várias passagens em que se reconhecia, mesmo tratando-se de uma ficção, fora do local e do tempo, e com relatos gerados pela liberdade criativa.
PC — Optou por um protagonista que é um anti-herói. Porquê?
BP — Porque tenho o conceito de que não há heróis na vida real e de que ninguém é inteiramente bom ou inteiramente mau. Todos temos ambas as condições dentro de nós, e sobrevive aquela que, em dado momento, alimentamos.
PC — Partilhe connosco o seu processo de escrita.
BP — Começo por dizer que o bom processo é aquele que resulta para cada pessoa. Gosto de escrever em total liberdade e de montar previamente uma estrutura de pequenos capítulos. À partida, já sei que o livro terá trinta capítulos, como é o caso do que será lançado em setembro, ou cinquenta capítulos, que foi o caso de Os segredos de Juvenal Papisco. Faço as minhas pesquisas e, quando inicio o processo de escrita, diretamente no computador, tenho ao meu lado apenas um dicionário de sinónimos. Não mostro a ninguém antes de ter uma primeira versão revista por mim. Este novo livro contou com o apoio do professor Carlos Fiolhais, que também leu o manuscrito antes de o ter enviado ao Vítor Gonçalves, o meu editor.
PC — Acredita na inspiração?
BP — A inspiração não existe. Não sei o que isso é e duvido que alguém o saiba realmente. Há método e processo. Sei que parto com uma história na cabeça. Afeiçoo as mãos ao teclado. Olho para a estética das primeiras frases. Deixo que as personagens comecem a ganhar vida e consinto que mudem o rumo dos acontecimentos. Este é um processo de maior sofrimento, pois é angustiante não saber o que a história poderá trazer no dia seguinte, e daí a uma semana, ou daí a um mês.
PC — Quanto tempo leva?
BP — Dois, três, quatro, cinco, até seis meses no processo criativo. E mais uns seis meses entre a revisão e o livro objeto.
PC — O seu romance foi publicado por uma editora tradicional…
BP — Sem o meu editor, o Vítor Gonçalves, da Porto Editora, o meu livro não teria alcançado este sucesso. É um editor muito presente, com apurado sentido crítico e incrivelmente honesto. A Porto Editora é uma das chancelas mais valiosas no mundo do livro.
PC — No entanto, hoje, todos os autores precisam de ajudar a promover as suas obras. Como encara essa necessidade de marketing de autor?
BP — Parece-me essencial que haja um compromisso do autor com a obra. É através desse compromisso que a roda começa a girar na estrada das feiras literárias e dos eventos de promoção do livro e, consequentemente, é assim que chega aos leitores.
PC — O mercado editorial já teve dias melhores…
BP — Penso que há muito caminho a fazer na formação e na mediação de públicos. Vivemos num tempo de oralidade rápida e de consumo imediato. Sem leitores, como podem as editoras apostar em livros? O Estado deveria assumir um estímulo mais consistente nesta esfera. O mecenato cultural pode também dar um contributo muito auspicioso. E os autores também devem fazer bem o seu trabalho.
PC — O que acha que deve melhorar na indústria editorial?
BP — É indeclinável que as editoras devam assegurar condições mínimas para estarem no mercado, tais como a revisão das obras, a distribuição e o ressarcimento dos direitos de autor, entre outras.
PC — Fale-nos um pouco dos seus próximos projetos literários.
BP — Há dias ligaram-me da livraria Bertrand a dizer que uma leitora foi lá para saber se haveria uma sequela de Os segredos de Juvenal Papisco. Esta abordagem tem sido muito frequente, um pouco por todo o lado. Pode ser que calhe mesmo uma sequela, ou uma “prequela”, ou até ambas. Contudo, para já, o próximo romance será apresentado no dia 15 de setembro.
PC — Quando é que alguém pode ser já considerado um escritor?
BP — Nunca e sempre. O escritor não é apenas aquele, ou aquela, que escreve. Está muito para além disso, pois há uma condição intelectual que reveste o epíteto. O uso da língua, por si só, não confere qualquer “posto”.
PC — A questão inevitável: deixe um conselho a quem quer ser um escritor.
BP — Leiam e escrevam muito, ouçam a vossa voz narrativa interior, que é única e, se acharem que pode valer a pena, deem tudo pelo vosso sonho, pois “não há bom vento para quem não conhece o seu porto”.
PC — Professor, jornalista e romancista. Consegue fazer contas de cabeça e dizer quantas histórias tem por e para contar?
BP — Não sei. Quero apenas pensar que, no horizonte, há sempre mais futuro que passado.
PC — Qual foi o melhor conselho que recebeu?
BP — Não importa o destino, mas a viagem.
PC — Todos temos um lugar no mundo. Qual é o seu preferido?
BP — Uma pequena quinta que tenho, chamada Pouca-Terra, um espaço natural de escrita, de onde se vê o céu sem impurezas e tomamos consciência da imensidão do Universo.
PC — Tendo em conta a sua vida profissional e pessoal, quem gostaria que fosse o Bruno Paixão daqui a dez anos?
BP — A minha maior honra seria que alguém dissesse de mim que sou uma pessoa boa.