Para que serve a literatura?

O poder da palavra.

A literatura é, tout court, a arte que utiliza a linguagem escrita como forma de manifestação.

A curiosidade é um dos grandes motores do progresso humano e uma das causas principais que nos leva a continuar a ler uma história depois de a começarmos.

Ao expandir-se a linguagem do homem, fruto de uma mutação genética, de uma revolução cognitiva, gerou-se a capacidade de abstração. Isto permitiu tornarmo-nos seres sociais.

O homem primitivo não se contentou, apenas, com a sobrevivência, precisou de compreender o facto de estar vivo, a própria existência, começando, assim, a sentir necessidade de dar ordem ao mundo. É o único animal que acredita em coisas que não existem ou que, existindo, não são tangíveis.

Surge, então, o mito para pôr ordem no caos que era pensar a criação do mundo, a imortalidade, a natureza. Com as histórias, essa compreensão começa logo na infância, ordenando a realidade em bons e maus, heróis e vilões.

Ao longo dos séculos têm aparecido várias correntes sobre a utilidade da literatura.

Umas defendem que ela deve ser uma arte autónoma, que não esteja ao serviço da filosofia, da política, da moral. Deve responder apenas à própria beleza da criação. O belo será tudo aquilo que não é útil.

Outras defendem que ela deve denunciar a necessidade de mudar o mundo civilizado, de estar comprometida com causas políticas e sociais.

Mas, a escrita é, fundamentalmente, uma fuga do mundo, a possibilidade de viver outras vidas, de experimentar o que nunca poderíamos viver na realidade, de sermos mais felizes. A literatura é uma técnica de orientação (e desorientação!) da imaginação, que não serve simplesmente para comunicar, mas para fazer viver experiências simuladas. Ao partilhar uma história, o homem amplia a sua própria complexa experiência existencial, clarifica-a, enriquece-a e articula-a, adquirindo assim novos instrumentos para enfrentar os desafios da vida real.

Desde sempre, o poder político censurou, controlou e amordaçou a literatura por perceber a sua importância, porque ela é tudo: beleza, paixão, conhecimento, comunicação, denúncia, reflexão, o que torna um ser humano o mais livre possível, capaz de pensar, com espírito critico. A literatura emancipa mentes, incentiva a criatividade lúdica e motiva o pensamento analítico sobre o mundo. Torna-nos mais hábeis na compreensão dos outros, das suas ações e atitudes, e nas dinâmicas das relações que nos interligam. Situa-nos como membros da cultura humana. Gera significado em situações, sentimentos, lugares e memórias abstratas. Prepara-nos para compreendermos o sentido e o peso das palavras, as nossas e as dos outros.

Afinal, a literatura serve para viver.

“Não há melhor navio para viajar para longe do que um livro.”,

Emily Dickinson

Publicado em Repórter Sombra

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