Poderemos todos ser artistas?

A arte é uma janela aberta sobre o maravilhoso mistério das emoções.

Umas das mais belas formas que o ser humano encontrou para falar dos seus sentimentos mais profundos. Chave mágica que abre portas de universos muito para além do quotidiano. Comove, sensibiliza, desperta sentires. Tudo se torna mais vívido, tudo nos faz cócegas na alma. É a forma mais bonita de olhar e falar sobre a vida. Encontramo-la na escrita, na pintura, no desenho, na gravura, na escultura, na ourivesaria, na cerâmica, na arquitetura, na fotografia, na dança, no teatro, no cinema, no circo, na cozinha. Mas também em cada simples gesto, em cada olhar, em cada lugar. Percebê-la é uma questão íntima e individual.

As primeiras manifestações artísticas remontam ao Paleolítico, 30 mil anos a.C. Até muito tarde, uma ferramenta de funcionalidade, utilidade prática e associada à religião e à moral, passou a objeto de contemplação.

Ainda assim, até há pouco tempo, a arte não era para todos, só um público muito restrito tinha acesso a galerias e museus. Era elitista e académica, ligada à cultura erudita. Aliás, só depois do fim da ditadura, em Portugal, saiu dos ateliers e das escolas especializadas e chegou ao ensino público. Afirmou Sophia de Mello Breyner Andresen, na intervenção que fez na Assembleia Constituinte, em 2 de setembro de 1975: «(...) a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades.» Mescla de educação formal, informal e não-formal. Superam-se os cânones. Talvez o futuro passe pelo pensamento artístico, em vez de arte, como defende a investigadora espanhola Maria Acaso.

Impõe-se democratizar a arte. Ela é um direito de todos, para todos. Tem de ser tornada pública e acessível. Quantos artistas terão ficado na sombra do desconhecido? Veja-se o caso de Vivian Maier. Em 2007, John Maloof encontrou os negativos de milhares de fotografias, numa caixa que comprou num leilão, e tentou reconstruir a vida misteriosa e controversa de uma nanny, fotógrafa de excelência, resgatando-a, postumamente, do anonimato.

Esta democratização foi acompanhada de um boom da arte. De repente, todos somos artistas. Publicam-se livros impressos numa qualquer gráfica, expõem-se quadros em garagens, canta-se em bares de karaoke e há aulas de artes presenciais e digitais para todos os gostos. A Internet é o maior agente democratizador, já que permite que as diversas formas artísticas cheguem a muitas pessoas, através de visitas guiadas a museus, da disponibilização de obras, da divulgação de eventos e da possibilidade de frequentar cursos online. Democratizou-se o acesso à arte, mas também a criação.

De acordo com a Pordata, de1986 a 2022, o número de equipamentos culturais subiu de 232 para 977, o de exposições realizadas de 1.786 para 6.178 e o de obras expostas de 65.851 para 236.029.

O Homem retorna a um certo hedonismo, torna-se cada vez mais reflexivo, quer fruir do prazer e da beleza.  

Não confundir democratização com vulgarização. Toda a arte requer talento e trabalho. José Augusto-França, “um subversivo de natureza e de cultura”, que se dizia um homem preguiçoso por natureza, obrigava-se, por isso, a trabalhar arduamente todos os dias.

Diz a nossa Constituição, no artigo 78º, que: «Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.»

Mas poderemos todos ser artistas? Se a arte é inerente à condição humana e conseguimos transformar experiências, emoções e ideias em algo tangível, sim. Criamos arte. Para nossa fruição ou para a alheia. Sem perder a humildade de reconhecer os que possuem o verdadeiro dom.

As grandes obras de arte somente são grandes por serem acessíveis e compreendidas por todos.

Leon Tolstói

Publicado em Repórter Sombra

 

 

 

 

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