Popular não, popularucho

As letras das músicas chamadas pimba são o maior desastre lírico das últimas décadas.

Todos temos o direito de usar a linguagem de maneira irreverente, mas não será também nosso dever refletir sobre o impacto que isso tem?

Não se trata de elitismo, sim de qualidade. A diversidade de gostos é necessária. E há gostos para tudo, como diz o povo. Mas é preciso reconhecer o evidente empobrecimento da palavra e o declínio cultural trazido, também, pela superficialidade deste tipo de composições.

Lembro-me de, há muitos anos, assistir a um espetáculo, na Queima das Fitas, com um cantor emergente, que se tornou popularucho. É importante distinguir: popular é o que se transmite informalmente ou com base na tradição oral; popularucho imita o popular e é de baixa qualidade, sem profundidade ou autenticidade. Na altura, por não me interessar a música, nem a pessoa, nem as letras, não prestei atenção a estas. Muitos outros cantores do género se seguiram. Com o passar do tempo, a chamada música pimba começou a entrar-nos casas e ouvidos adentro, sem permissão.

Sobre música sei pouco, apenas o que me soa bem ou mal. Haverá músicas pimba de grande qualidade musical, outras de péssima. Mas de palavras percebo. Nunca gostei das brejeirices tão ao gosto do nosso recanto geográfico. Fui percebendo que este tipo de letras se divide em duas partes: a do amor, associado à traição, ao ciúme, ao desgosto, sentimentos e situações que, alguma vez, fizeram parte da vida de todos; e a da brejeirice, linguagem subtil, que a pouco e pouco se foi tornando menos cuidada nas insinuações, mais explícita e vulgar. A primeira, uma forma inteligente de apelar a experiências universais, a segunda, uma forma rápida e rentável de chegar a um público vasto.

A música pimba está a tornar-se um canto cada vez mais escuro da música popular portuguesa, embora cada vez mais visível e mais aceite por mais pessoas. São muitos mais para tanto mau gosto. Letras brejeiras, construídas com trocadilhos e metáforas sexuais grosseiras, limitadas a uma tentativa de humor primitivo, que reduz o diálogo sexual ao nível mais raso. Quem promove o espetáculo e quem se anima com ele — o povo gosta daquilo que lhe é oferecido em massa, sem lhe dar grandes oportunidades de escolha — defende estas letras grosseiras como uma libertação cultural, um desafio aos tabus sexuais ainda guardados na nossa sociedade. Não será este um retrocesso em vez de uma emancipação?

A sexualidade, que poderia ser explorada de forma provocadora e elegante, é reduzida ao vulgar e ao caricato, o que mina a complexidade dos afetos e plasma uma visão desvalorizada das relações humanas.

E o fenómeno perpetua-se num crescendo. Agora já não são apenas insinuações sexuais infantis. Recentemente, numa festa de aldeia — palco privilegiado para este tipo de música — tocava o que poderia ser uma balada. Estupefacta, perguntei aos presentes se não estava enganada. Não estava. O cantor repetia, muitas vezes, não fosse alguém não perceber bem, uma série de palavras explícitas. Daquelas que, se ditas, em casa, por crianças e jovens lhes mereceriam uma valente repreensão. No entanto, ali, todos, independentemente da idade, cantarolavam, batendo o pezinho e palminhas e abanando a cabecinha. 

A nossa música popular não está apenas a perder a subtileza; está a perder o seu caráter genuíno de expressão das emoções e das vivências do povo. Quando foi que permitimos que a fasquia caísse tanto?

Talvez se possa argumentar que as letras da música pimba refletem uma crise criativa, que em vez de desafiar os ouvintes a pensar, a refletir ou a sentir algo genuíno, escolhem o caminho mais curto para o sucesso: a provocação sem substância. Não é verdade. A música popular de qualidade continua a existir. O problema é estar a ser abafada por uma máquina de produção que massifica o fácil e o rentável. Certo tipo de imprensa — revistas, rádio, televisão — bombardeiam-nos com este tipo de letras e, pouco a pouco, resignamo-nos a aceitar como "normal" aquilo que é um espetáculo de mau gosto. Perde a cultura.

Ainda estamos a tempo de questionarmos se é realmente isto que queremos para a nossa expressão popular. Perdemos todos.

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