«um, ninguém e cem mil», de Luigi Pirandello

𝙪𝙢, 𝙣𝙞𝙣𝙜𝙪é𝙢 𝙚 𝙘𝙚𝙢 𝙢𝙞𝙡, publicado em 1926, foi escrito entre1909 e1926, por isso é considerado o romance que expõe toda a carga de experiência e amadurecimento intelectual de Pirandello. Narrado na primeira pessoa, está dividido em 8 livros.

Vitangelo Moscarda é um homem de 28 anos, bancário, pouco dado ao trabalho. Certo dia, ao ver-se ao espelho, é confrontado com um reparo banal da esposa sobre um pequeno defeito do seu nariz, ao qual se seguem outros sobre outras partes do seu corpo, peculiaridades até aí desconhecidas por ele. É este o gatilho para os problemas de identidade deste homem. O comentário da mulher causa-lhe um impacto intenso que o leva ao drama existencial que atravessa todo o romance. Percebe que as pessoas à sua volta têm uma visão dele diferente da que ele tem de si. A sua imagem é construída pelo que os outros pensam dele. Mas esse não é ele. Passa, então, a viver sob uma preocupação constante com a opinião dos outros. As suas reflexões deixam claro que cada indivíduo se vê de certa forma, mas é visto pelas outras pessoas de formas diferentes. Na realidade, portanto, ninguém conhece ninguém.

Todo o romance é uma tentativa de desconstrução da imagem que os outros têm dele e de se conhecer a si. Mas, ao investigar a forma como os outros o veem, percebe que abomina as identidades que vivem dentro dele.

Moscarda tem consciência do peso da opinião pública e, por não suportar a implacável pressão social, afasta-se de todos, da esposa e dos amigos e inicia uma busca desesperada por uma unidade entre o seu universo interior e o exterior. Mas os rótulos que a sociedade já lhe impusera – preguiçoso, usurário, como o pai, etc – não lho permitem. Descobre que já não é um, é cem mil ou mesmo ninguém.

As reflexões de Moscarda são uma alusão às preocupações da sociedade do século XIX, em que o defeito físico provocava distanciamento e, até mesmo, reprovação como se fosse um pecado.

É importante ressaltar a figura do espelho, ao qual o narrador recorre em busca de si. O espelho é quase uma personagem, é o objeto que isola Moscarda do mundo.

O modo como Pirandello ultrapassa as características físicas, para refletir as características espirituais do homem, remete para o processo de passagem do século XIX, que se preocupava em olhar o homem por fora, para o XX, em que começa a olhar mais para o seu interior.

Pirandello trabalha muito situações contrárias, como, por exemplo, a oposição entre essência e aparência, geradora do conflito de uma vida não vivida. Há uma lei que nos obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo. E é essa escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral. O sacrifício de uma multidão de vidas que poderíamos viver e, no entanto, não vivemos.

Há uma desarmonia espiritual do narrador, que Pirandello coloca em cena a partir da desarmonia física.

Há quem questione se o livro é um romance. De facto, existe uma pluralidade de estilos dentro do livro.

Aproxima-se do ensaio, ao elaborar sínteses, análises e conclusões, ao apresentar tópicos esquematizados. O romance está dividido em 8 “livros”, assumindo uma fragmentação, ao mesmo tempo que se nega a unidade singular.

No entanto, há uma narrativa. A presença do leitor como interlocutor em diálogos com o narrador é recorrente. O leitor não é passivo, interage com o narrador, mesmo corporeamente – o leitor, nós, fica pálido. A apropriação da figura do leitor como interlocutor é um aspeto comum no romance. Habitualmente, há um leitor singular como forma de criar intimidade. Aqui, usa-se o plural. O leitor partilha a sua pretensa exclusividade com outros. Tal como o narrador, também o leitor é plural. Cem mil, tanto o narrador como o livro. Cria-se mesmo um diálogo com o leitor, uma discussão filosófica sobre consciência, identidade e realidade.

Uma última nota para o papel central que o corpo ocupa no desenrolar do livro. Há uma relação corpórea entre, de um lado, o narrador-personagem e o leitor, e, de outro, o livro e o leitor.

𝙪𝙢, 𝙣𝙞𝙣𝙜𝙪é𝙢 𝙚 𝙘𝙚𝙢 𝙢𝙞𝙡 é um livro que explora a volatilidade do nosso eu e da nossa personalidade, quase um ensaio sob a forma de romance, que nos leva a explorar dúvidas filosóficas e existenciais acerca de nós, de quem somos, afinal, para nós e para os outros. Convoca a reflexão sobre nós. Afinal, quem sou eu? Como me veem os outros? O que há em comum e diferente entre a forma como eu me vejo e aquela como o outro me vê? Ou tenho várias facetas que vêm à tona em momentos diferentes? Tenho o hábito de me ver? Eu tenho a minha resposta: somos todos um, ninguém e cem mil.

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