“A Desobediente”, de Patrícia Reis
Comecemos por perceber que esta não é, segundo a autora, uma biografia científica, imparcial, por ter sido escrita com a autorização e colaboração da biografada, durante as muitas horas de conversas entre ambas as mulheres.
Aliás, a autora confessa, não omitindo acontecimentos importantes, ter optado por resguardar a intimidade de Maria Teresa Horta.
Se, por um lado, as dezenas de conversas com a biografada terão sido um prazer, por outro criaram a dificuldade da validação das informações por fontes secundárias, por se tratar de uma mulher que, felizmente, está viva.
A autora socorreu-se, também, das entrevistas de Maria Teresa Horta desde 1960, dos artigos que escreveu, dos diversos trabalhos académicos e da sua obra. Pretendia dar a conhecer a vida extraordinária desta mulher, mas também “manter a sua obra viva”.
A cronologia do livro começa em 2019, com a ideia, percorre os três anos seguintes com as conversas e conclui-se em 2023, aos 86 anos de Maria Teresa Horta.
Conseguimos perceber o ritmo, a eficácia e o prazer com que o livro foi escrito. Mas não podemos descolar-nos da biografada. É por ela que o lemos.
A primeira parte do livro, que é a maior, refere-se à infância, à adolescência e aos primeiros anos de vida adulta. É aqui que conhecemos as três pessoas que mais importância tiveram na vida de Maria Teresa Horta, por motivos diferentes: a mãe, o pai e o marido, Luís de Barros.
Com o pai a relação foi sempre muito difícil por ele não aprovar o seu comportamento irreverente, uma certa necessidade permanente de conflito.
Com a mãe a relação foi dúbia. Apesar do pouco afeto e até do perigo a que a mãe a expunha, MTH passou a vida à procura do amor que não lhe era concedido. Defendia-a e protegia-a por acreditar que eram parecidas, que também a mãe se tornara desobediente para procurar o seu lugar no mundo. No fundo, foi o exemplo da mãe que a tornou uma ativista do feminismo.
Com Luís Barros, o marido, a relação foi de amor profundo.
Todas as mulheres que encontramos em Maria Teresa Horta — a jornalista, a feminista, a escritora, a política, a poetisa — se moldaram durante toda a sua vida, em redor daquelas três pessoas, que, voluntaria ou involuntariamente, lhe incutiram o valor da Liberdade.
Desobediente, por todo o seu percurso. A libertação de uma família aristocrática, conservadora, católica, para um caminho de esquerda, a defesa das mulheres, uma voz insubmissa.
Encontramos aquilo que, para as gerações posteriores, faz parte do nosso imaginário: a época conturbada das perseguições e atrocidades cometidas pela PIDE, a tacanhez do país, as Novas Cartas Portuguesas, as amizades com outros escritores, o aborto, o cancro de mama e, hoje, a solidão. Uma vida rodeada de livros, fotografias e filmes. E sempre a poesia.
Finalmente, relembrar que, apesar de tudo, a luta de Maria Teresa Horta pela Liberdade e pelos direitos da Mulher não teve um resultado definitivo. Nada está garantido. Alguns sinais mostram que há mentalidades adormecidas à espera de uma oportunidade para se revelarem.
Que a luta desta mulher maior não tenha sido em vão!
«Teresa teve o sentimento constante de ter sido silenciada. Por ser incómoda. Acintosa. Demasiado rápida de pensamento e de resposta. Incapaz de ficar calada. Em resumo: ”Uma chata. Sempre fui uma chata.”[…]»