“Misericórdia”, de Lídia Jorge

E a morte aqui tão perto…

Publicado em 2022, pela Dom Quixote, este livro será um marco na literatura portuguesa.  Prémio Médicis Étranger, Prémio Literário Fernando Namora, Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, Grande Prémio de Romance e Novela 2022 da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e Melhor Livro Lusófono publicado em França.

Trata-se de uma narrativa híbrida: romance, diário íntimo, memorial, biografia e crónica. Lídia Jorge propõe um romance, mas encerra com um complemento autobiográfico. O livro nasce de uma emoção, por ter sido encomendado pela mãe da autora, institucionalizada, pouco tempo antes de falecer. Sobretudo, o título não poderia ser outro. Daí, uma história atravessada por tantos laivos pessoais. Ao mesmo tempo, a autora escolhe não usar os nomes da família, para que seja o leitor a construir a história.

É, mais uma vez, um livro sobre temas incómodos: a perda, a memória individual, o silenciamento das mulheres, o olhar humanista, a voz das margens. Agora, sobretudo, a consciência da finitude.

A história passa-se num lar de idosos, o Hotel Paraíso, junto ao mar, durante o primeiro ano da pandemia.

A protagonista é uma mulher que, com grandes limitações de mobilidade, escolhe ir viver para aquele lugar, depois de se despedir de todas as suas coisas, num dos excertos mais comoventes do livro.

Aquele lugar. Quanta ironia no seu nome! Não nos iludamos: o Hotel Paraíso é um verdadeiro microcosmo. As relações sociais que se estabelecem entre os que ali vivem e os que ali trabalham tornam-no num espelho do desafio humano. Neste espaço fechado, onde convivem pessoas com um tempo limitado de vida, cria-se uma intensidade de sentimentos e relações inimagináveis para quem está de fora. Porque há um dentro e um fora, sim. Intersecionam-se, através dos cuidadores e das famílias, mas diferenciam-se.

Esta mulher singular não se rende, agarra os instantes de felicidade como tábuas de salvação, transforma as pequenas coisas em atos de esperança e beleza. A perda, as adversidades não lhe causam desesperança. Geram raiva, energia, vontade de renascer, uma grande rebeldia contra a infantilização dos idosos. A Dona Alberti nunca se fecha aos outros, deseja o tudo. Não conseguindo escrever todas as palavras que lhe vão na alma, regista, diariamente, duas ou três linhas, ininteligíveis para os outros, mas que libertam a sua vontade de contar. De alguma maneira, o livro é uma ode à palavra.

Apesar do exílio, há a imortalidade da esperança, um hino à vida, a fuga à noite — metáfora da morte —, que atravessa o romance.

Todas as vidas confinadas naquele espaço, as dos velhos e as dos cuidadores, são valorizadas. Assim que ali entram, há uma reconfiguração da sua identidade. Os primeiros, porque têm a consciência de que se vive tudo pela última vez. Os segundos, porque pertencem ao universo das pequenas e efémeras coisas. Quase todos emigrantes, ficam pouco tempo, ganham mal, trabalham muito e, de forma geral, não querem estar ali. Sempre a denúncia social.

Estas pessoas não são os outros, somos nós. Este só é um livro sobre pessoas idosas à superfície. Na verdade, é um livro sobre pessoas. Sobre a nossa necessidade de encontrar um sentido para a vida, para o amor, para as experiências.

Leitura obrigatória, num tempo em que as sociedades se questionam sobre a forma como tratamos os nossos velhos. Com mestria, a autora leva-nos a refletir sobre a compaixão por aqueles que, limitados pela sua condição de grande fragilidade, vivem uma resistência escondida. Uma reflexão sobre a condição humana. Um apelo à misericórdia.

“Todo este cruzamento de vidas dói-me mais do que a minha vida.”

Dona Maria Alberta

Lídia Jorge considera que estamos hoje “a tratar melhor os mais velhos” e que “as casas de acolhimento das pessoas idosas são sítios de fraternidade, são sítios de generosidade”, admitindo as exceções. O que falta, diz, entre outras coisas, é formação e remuneração à altura. Eu discordo. Não me parece que estejamos a tratar melhor os mais velhos. Mas esse é assunto para outro momento.

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